O Instante

O Instante

o instante
é pluma

seu holograma
radia estável

como quem olha pelo cristal
do tempo

feixe fixo
de luz

(já não se vê se o olho deixa sua seteira)

prisma

o sol
chove
de um teto
zenital

elipse: um estilo de persianas

Haroldo de Campos, Signatia quasi coelum, 1979.

*

Ângelo Luís

O poeta ezra pound desce aos infernos

O poeta ezra pound desce aos infernos
(Haroldo de Campos)

não para o limbo
dos que jamais foram vivos
nem mesmo
para o purgatório dos que esperam
mas para o inferno
dos que perseveram no erro
apesar de alguma contrição
tardia e da silente senectude
- diretamente com retitude -
o velho ez
já fantasma de si mesmo

e em tanta danação
quanto fulgor de paraíso

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

Rima Petrosa – 1

Rima Petrosa – 1        (Haroldo de Campos)

uma bruteza
límpida
que em nada se detém

uma crueza
lâmina
que se apaga em ninguém

uma lindeza
nítida
que a si mesma sustém

uma ingênua fereza
feita só de desdém

uma dura candura
que nem loba que nem

uma beleza absurda
sem porquê nem porém

um negar-se tão rente
que soa um shamisen

uma causa perdida
um não vem que não tem

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

Entrevista de Haroldo de Campos

Trechos da entrevista do poeta Haroldo de Campos, no programa Roda Viva, em outubro de 1996. 

Haroldo de Campos – A imprensa e o contexto literário nos anos 1950 e 1960

Haroldo de Campos – O conceito de poesia para o autor de Galáxias

Poesia Concreta: Um movimento sectário?

Haroldo de Campos – A tradição da oralidade: na poesia e o Verbivocovisual

Haroldo, um socialista (mas não stalinista)


*

Ângelo Luís

HAROLDO DE CAMPOS – PARTE 1

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Haroldo (Eurico Browne) de Campos nasceu em 19 de agosto de 1929 em São Paulo, capital. Foi casado com Carmen de Paula Arruda, com quem teve um único filho, Ivan Pérsio de Arruda Campos, nascido em 1962. Poeta, tradutor de poesia em diversos idiomas, ensaísta e crítico literário, realizou seus estudos secundários no tradicional Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol, francês). Participou do Clube de Poesia, ligado à Geração de 45, onde publicou seu primeiro livro de poemas, O Auto do Possesso, aos 21 anos. Em 1952, rompeu com o Clube de Poesia e, com o irmão Augusto de Campos e Décio Pignatari, criando em seguida o grupo Noigandres e a revista de mesmo nome. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1952. Foi procurador da USP até se aposentar.

O Noigandres foi o embrião do movimento da poesia concreta, que exerceu grande impacto na literatura brasileira e internacional, com mostras e exposições em países como Alemanha, Japão, Itália, Espanha, Tchecoslováquia, Suíça, Argentina, Inglaterra etc. A poesia concreta realizou, por meio da tradução, uma extensa revisão da poesia mundial com o objetivo de revitalizar a invenção poética. Em 1962, Haroldo de Campos escreveu “Da Tradução como Criação e como Crítica”*, ensaio fundamental para os estudos da tradução, depois de ter traduzido ou enquanto traduzia poetas como os grandes modernistas de expressão inglesa (Pound e Joyce), vanguardistas alemães (Gomringer, Heissenbüttel), o Mallarmé de Un Coup de Dés, Francis Ponge, Dante, Ungaretti, Maiakóvski e haicaístas japoneses. Assim, oferecia aos leitores brasileiros um rico acervo de poesia, até então virtualmente desconhecido, e extraía dessa experiência uma teoria inovadora e um novo padrão para a tradução literária.
Em 1959, permaneceu cerca de um ano na Europa. Em Colônia, encontrou-se com Karlheinz Stockhausen, no estúdio de música eletrônica da rádio da cidade, e em Rapallo, com Ezra Pound, com quem já vinha se correspondendo e cujos Cantos traduzia ao lado de Augusto de Campos e Décio Pignatari. A partir dessa primeira viagem ao exterior, continuou estabelecendo contato com renomados poetas, artistas e intelectuais estrangeiros. Em 1964, foi leitor junto à Cátedra de Filosofia (Estética) do professor Max Bense na Universidade de Stuttgart. Nesse ano, também viajou para Baden-Baden, onde entrevistou Pierre Boulez, e para a Itália, onde conheceu os poetas “novíssimos” italianos e o crítico Umberto Eco, que se surpreendeu ao saber que o poeta brasileiro tinha antecipado sua teoria da obra de arte aberta num ensaio escrito em 1955**. Entre 1963 e 1964, visitou também Praga, onde deu uma conferência sobre poesia concreta e entrou em contato com a obra de Guenádi Aigui, poeta russo que depois traduziria, e conheceu vários intelectuais, entre eles Josef Hirsal e Ladislav Novák. Em 1966, a convite do PEN American Center, participou do XXXIV International PEN Congress, em Nova York, do debate “O Escritor na Era Eletrônica”, presidido por Marshall McLuhan. No mesmo encontro, representou o Brasil na mesa-redonda “A Situação do Escritor na América Latina”, com Victoria Ocampo, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa e Emir Rodriguez Monegal. Também em 1966, conheceu Roman Jakobson na Califórnia. Do longo convívio que ali teve início, resultou o ensaio do lingüista russo intitulado “Carta a Haroldo de Campos sobre a textura poética de Martin Codax”***.

Recebeu o prêmio Presenza d’Italia in Brasile, em 1968. Durante a década de 60, intensificou sua atividade crítica com ensaios sobre inúmeros autores brasileiros e estrangeiros, muitos deles depois reunidos em Metalinguagem & Outras Metas. Procedeu também ao resgate de autores brasileiros que haviam ficado à margem da historiografia tradicional, como Sousândrade e Oswald de Andrade. Em 1969, convidado pela Direction Générale des Relations Culturelles, desenvolveu pesquisas sobre literatura de vanguarda em Paris. Conheceu Octavio Paz, com quem já vinha se correspondendo. Em 1981, concluiria a tradução do poema Blanco do poeta mexicano. Foi amigo de músicos ligados à Tropicália, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, de cineastas como Julio Bressane e Ivan Cardoso, e de artistas plásticos como Helio Oiticica, entre outros.
Em 1971, recebeu a Bolsa Guggenheim, que lhe permitiu fazer pesquisas na Europa e Estados Unidos para a tese de doutorado que defenderia em 1972 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A tese foi publicada com o título Morfologia do Macunaíma. Nesse decênio, dedicou-se a aprender russo, traduzindo Maiakóvski e outros poetas russos, com Augusto de Campos e Boris Schnaiderman. Passou a dirigir a Coleção Signos, da editora Perspectiva, tendo publicado em sua gestão mais de trinta volumes. Ainda em 1971, foi professor visitante junto à Universidade do Texas em Austin, onde voltaria a ensinar em 1981. Aprofundou o interesse pela literatura hispânica, travando contato com vários escritores, como Julio Cortázar, Severo Sarduy e Cabrera Infante. Cortázar faria dele um dos personagens de Un tal Lucas, escrito em 1979. Em 1978, foi professor visitante na Universidade de Yale, em New Haven. Entre 1973 e 1989, foi professor titular de Semiótica da Literatura no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), obtendo o título de Professor Emérito em 1990. Foi um dos introdutores da semiótica no Brasil.
Nos anos 80, estudou hebraico e começou a traduzir textos bíblicos, projeto que retomaria na década de 90, para a preparação do livro Éden: um tríptico bíblico, publicado postumamente. Em 1984, publicou Galáxias, texto que escrevera entre 1963 a 1976, diluindo as fronteiras entre poesia e prosa. Na década de 90, fez duas viagens marcantes. Em 1991, a Japan Foundation o convidou para visitar o país de autores que ele divulgou no Brasil, como o poeta Bashô e o filósofo Fenollosa. Em 1994, o Instituto Cultural de Israel proporcionou-lhe uma viagem ao país, em que fez contato com grandes poetas israelenses como Yehudá Amichai, Natan Zach e Haym Gúri, dos quais traduziu alguns poemas. Também nesse período, aprofundou seus conhecimentos de grego e traduziu integralmente a Ilíada de Homero. Foi um dos fundadores da Associação Brasileira dos Amigos de James Joyce e introduziu o Bloomsday no Brasil, comemoração que vem se repetindo anualmente desde 1988.

Em 1991, recebeu uma homenagem em Salto Oriental, Uruguai, organizada pelo Centro Cultural de Salto e a Academia Nacional de Letras, e coordenada pela Profa. Dra. Lisa Block de Behar. No mesmo ano, foi homenageado na ocasião do 35º aniversário da Fundação da Aliança Cultural Brasil-Japão. Em 1992, participou do Ciclo Internacional de Poesía, na Residencia de Estudiantes, em Madri. Realizou leitura de seus poemas no Copenhagen’s International Festival of Poetry, na Dinamarca, em 1993. No ano seguinte, participou do Projekt der KulturRegion Stuttgart im Max-Bense-Saal der Stadtbücherei im Wilhelmspalais, com apresentação de Galáxias por Theophil Maier e acompanhamento do conjunto Exvoco.
Em 1995, juntamente com outros poetas concretos brasileiros e portugueses, foi homenageado no evento ”A Symphosophia on Experimental, Visual & Concrete Poetry”, The Council on Latin American Studies, Yale University (New Haven-USA). No mesmo ano, participou da IIIª Biennale Internationale des Poètes, em Val-de-Marne, Paris, Lyon e Marselha, na França. Recebeu o título de Chevalier dans L’ordre des Palmes Académiques de France. Em 1996, ministrou o “Curso International sobre Poética da Tradução”, na Universidad International “Menéndez Pelayo”, Tenerife, Espanha. Nesse mesmo ano, participou do VI Festival Internacional de Poesia em Medellín, Colômbia, e proferiu o “Curso Internacional sobre Tradução como Gênero Literário”, na Residencia de Estudiantes, em Madri. Também em 1996, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Montréal, Québec.

Foi vencedor do prêmio Jabuti em 1991, 1992, 1993, 1994, 1999, 2002, 2003 e 2004. Sua biografia foi incluída na Enciclopédia Britânica em 1997. No mesmo ano, foi homenageado no II Congresso Arte e Ciência, promovido pelo Centro Mário Schenberg, ECA-USP e ABPA. A PUC-SP o homenageou no evento Diálogo das Artes – Homenagem a Haroldo de Campos, em outubro de 1996. Nessa ocasião, foi impresso um álbum de tiragem limitada com manifestações de Octavio Paz, Guillermo Cabrera Infante, Jacques Derrida e João Cabral de Melo Neto, acompanhado de um kakemono de Tomie Ohtake com um poema de Haroldo. Em seu texto-homenagem, Derrida escreve, “no horizonte da literatura, e antes de tudo na intimidade da língua das línguas, cada vez tantas línguas em cada língua, sei que Haroldo a tudo isso terá tido acesso como eu antes de mim, melhor que eu”.
Participou de uma mesa-redonda a convite da Feira Internacional do Livro em Frankfurt, em outubro de 1998, mesmo ano em que recebeu o Prêmio Internacional Lumière/Unupadec, em Roma, e participou do Simpósio Internacional Ressurgences Baroques, na Maison du Canada, em Paris. Foi o ganhador do Premio Octavio Paz de Poesía y Ensayo, no México, em 1999. Nesse mesmo ano, as universidades de Oxford e Yale, em homenagem aos 70 anos do poeta, dedicaram-lhe o simpósio “On Transcreation: Literary Invention, Translation and Poetics”. Obteve o prêmio John Jameson – Bloomsday 1999 por sua divulgação da cultura irlandesa no Brasil.

Participou do Simpósio sobre Alexander von Humboldt, organizado pela Fundação Humboldt, em Berlim, em junho de 1999. Também nesse ano, recebeu o prêmio Roger Caillois pela obra Galaxies, tradução francesa de Inês Oseki-Dépré. Em junho de 2000, participou do Colóquio Internacional Revues parlées, no Centro Pompidou, Paris, com leitura a onze vozes de Galaxies. Também em 2000, recebeu o prêmio Hors Concours Fernando Pessoa por Pedra e Luz na Poesia de Dante, categoria tradução, outorgado pela União Brasileira de Escritores. No mesmo ano, tornou-se membro do Comitato di Collaborazione Culturale dell’Istituto Italiano di Cultura di San Paolo, nomeado pelo Embaixador da Itália no Brasil.

O Projeto: Yûgen/Fundação Japão prestou homenagem a ele, bem como a Tomie Ohtake e H. J. Koellreutter. Foi convidado pela UNESCO e pelo Ministério da Cultura da Grécia a participar, com leitura bilingüe de seus poemas, do “Dia Internacional da Poesia”, celebrado em Atenas e Delfos (18-22/03/2001); paralelamente foi nomeado pela UNESCO e pelas autoridades italianas membro da “Academia Mundial da Poesia”, patrocinada pelo “International Institute for Opera and Poetry”. Proferiu, na Embaixada do Brasil, na Piazza Navona, em Roma, a conferência “Poesia brasiliana: dall’epoca coloniale alla contemporaneità: vocazione universale e traccia differenziale”.

Sua biografia foi incluída no Who`s Who in the World – 2001. Em 2002, foi homenageado pela USP por seu papel na divulgação da literatura japonesa no Brasil. No mesmo ano, realizaram-se uma exposição do grupo Noigandres em Genebra, Suíça, e uma homenagem no Museu Guggenheim de Nova York, com um ciclo de debates e leituras de que participaram, entre outros, Marjorie Perloff e Charles Bernstein. Umberto Eco o considerou “o maior tradutor moderno de Dante”****. Em 2003, o Colégio São Bento, por ocasião de seu centenário, homenageou o poeta, seu ex-aluno, entre outras personalidades insignes do país. No mesmo ano, recebeu homenagem in memoriam da Presidência da República, em Brasília, sendo admitido na Ordem do Mérito Cultural, na classe de Grã-Cruz.

Depois de seu falecimento em 2003, o acervo de 35 mil volumes de sua biblioteca pessoal (bibliocasa) foi doado pela família à Casa das Rosas, agora rebatizada de Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Além dos mais de trinta livros que publicou (de sua autoria ou em colaboração), Haroldo de Campos deixou, entre traduções e ensaios, um grande número de inéditos, que vão da poesia neogrega à náuatle. Suas últimas aventuras tradutórias incluem transcriações de poemas em egípcio antigo, idioma que estudava, amparado em vasta bibliografia especializada.

*

circum-lóquio

(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista

laisser faire laisser passer

1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.

o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:

enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami

4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre – festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

*

Ângelo Luís