A POESIA DE WALT WHITMAN

ImageWALT (Walter) WHITMAN nasceu em West Hills, Huntington (Long Island – EUA), em 31 de Maio de 1819, e foi educado sob a influência dos quakers (defensores do pacifismo e simplicidade), comunidade de que sua mãe, Louisa Van Velsor, de origem holandesa, fazia parte. Após estudos elementares, deixou a escola aos 10 anos de idade, começando a trabalhar, a princípio como menino de recados e depois como aprendiz de tipógrafo. Até os 22 anos permaneceu junto à família, ora ensinando, ora publicando folhetos e seus primeiros versos e histórias. Foi redator de vários jornais e ajudava o pai e o irmão na construção de casas, dedicando as horas vagas à confecção do livro que viria a ser sua obra máxima: Leaves of Grass (Folhas de Relva).

Em 1855 morre o pai de Walter Whitman. É o ano da primeira edição (anônima) de Leaves of Grass – Folhas de Relva. O volume, de 100 páginas, não trazia nem o nome do editor, nem o do autor. Apenas um retrato do poeta em mangas de camisa. Leave of Grass foi mal recebido pela crítica e pelo público dos Estados Unidos, o mesmo sucedendo às várias edições que, sempre acrescidas de novos poemas, depois disso se publicaram.
Durante Guerra Civil (1860-1860), serviu como enfermeiro e, em meio ao conflito continuou a adicionar poemas para novas edições do seu trabalho e escrever textos com conteúdo político. Enfraquecido pelas experiências da guerra, foi atacado por uma paralisia que o incapacitou para os restantes 20 anos de sua vida. Foi nesta fase, porém, que sua fama se irradiou pelo estrangeiro.
Em 1871 ocorre a emancipação dos negros e é também o ano da Emenda XIV à Constituição (que lhes dá o direito de votar). Neste mesmo ano realiza-se a Exposição Internacional de Nova Iorque, onde Whitman declama alguns poemas inéditos, e o da 5.ª edição de Leaves of Grass, de que são feitas duas tiragens com poucos meses de intervalo. A coletânea reúne agora um total de 273 poemas. Também em 1871 publica, Democratic Vistas. O estilo é seco e descritivo. A obra questiona a corrupção social e política daqueles tempos. Em 1872 vai a Hanover, no New Hampshire, a convite do Dartmouth College, uma universidade de tradições liberais.
Em 1873, duas tragédias abalam sua vida. Em 23 de janeiro, fica paralisado do lado esquerdo do corpo. Em abril daquele ano conseguiu recuperar parte da antiga agilidade. Todavia, em 23 de maio, ocorre a segunda tragédia: Louisa Van Velsor, sua mãe, morre. Walt Whitman foi seriamente atingido pelo impacto da morte da mãe. A saúde Walt Whitman piora constantemente.
Sofrendo de depressão e fisicamente debilitado, recebe a notícia, em julho de 1874, da sua demissão do Ministério da Justiça.
Em 1876, publica a 6.ª edição de Leaves of Grass em dois volumes: o 1.º reproduz a edição anterior e no 2.º aparecem os ensaios e vinte poemas inéditos. A sétima edição de Leaves of Grass saiu em 1880 e a oitava edição foi publicada em 1889.
Em 1888 sofre o mais grave ataque de paralisia. Nesse ano, financiado por Horace Traubel, vê publicados dois novos volumes: November Boughs, que reúne 62 poemas inéditos, e Complete Poems and Prose of Walt Whitman.
Nos últimos anos de vida, porém, foi feita justiça à obra-prima de Whitman.
Morreu em 26 de março 1892.
Walt Whitman foi um dos maiores expoentes da poesia norte-americana no século XIX e é reconhecido como inventor do verso livre. Sua obra inaugurava a literatura nacional dos Estados Unidos e influenciaria toda a principal corrente poética do país no século XX, influenciando por exemplo, poetas como William Carlos Williams, Carls Sandburg, Ezra Pound, Allen Ginsberg, dentre outros.

*

O Próprio Ser Eu Canto

O próprio ser eu canto:
Canto a pessoa em si, em separado
_ embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.
Eu canto o Corpo
Da cabeça aos pés:
Nem só o cérebro
Nem só a fisionomia
Tem valor para a Musa
_ digo que a forma completa
é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.
A vida plena de paixão,
Força e pulsam,
Preparada para as ações mais livres
Com suas leis divinas
_O Homem Moderno
eu canto.

tradução: Geir Campos

One’s-Self I Sing.

ONE’S-SELF I sing, a simple separate person,
Yet utter the word Democratic, the word En-Masse.

Of physiology from top to toe I sing,
Not physiognomy alone nor brain alone is worthy for the Muse, I
say the Form complete is worthier far,
The Female equally with the Male I sing.

Of Life immense in passion, pulse, and power,
Cheerful, for freest action form’d under the laws divine,
The Modern Man I sing. 

*

COM VOCÊ

Desconhecido, se você vier passando
e der comigo e me quiser falar
_ por que não há de falar comigo?
E eu, por que
também não haveria de falar com você?

tradução: Geir Campos

TO YOU.

STRANGER, if you passing meet me and desire to speak to me, why
should you not speak to me?
And why should I not speak to you?

*

VOCÊ, LEITOR

Você, leitor, que pulsa
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!

tradução: Geir Campos

THOU READER.

THOU reader throbbest life and pride and love the same as I,
Therefore for thee the following chants.

*

CANÇÃO DE MIM MESMO

fonte: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet183.htm

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
[ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade …. observando uma
[ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes …. as
[ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
[ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
[ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume …. não tem
[ gosto de destilação …. é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre …. estou
[ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
[ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros …. raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração …. a batida
[ do meu coração …. passagem de sangue e
[ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
[ da praia e das rochas marinhas de cores
[ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ….
[ palavras disparadas nos redemoinhos do
[ vento,
Uns beijos de leve …. alguns agarros …. o
[ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
[ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
[ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar …. apito do meio-dia
[ …. a canção de mim mesmo se erguendo
[ da cama e cruzando com o sol.

Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
[ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?…. sei tanto quanto ela o que
[ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
[ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
[ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
É seu ?

O blablablá das ruas …. rodas de carros e o
[ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
[ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
[ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
[ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ….
[ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
[ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
[ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
[ apressado forçando passagem até o centro
[ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
[ tantos ecos,
As almas se movendo …. será que são invisíveis
[ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
[ esmorecem e desmaiam de insolação
[ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
[ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui….
[ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
[ indecentes, consentimentos, rejeições de
[ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ….
[ estou sempre chegando.

Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
[ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
[ …. estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
[ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
[ homens.

Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
[ confortáveis e um cajado arrancado
[ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
[ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
[ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
[ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
[ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
[ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim …. está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
[ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
[ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
[ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
[ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
[ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

TRADUÇÃO: Rodrigo Garcia Lopez

SONG OF MYSELF

fonte: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet183.htm

I CELEBRATE myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs
[ to you.

I loafe and invite my Soul;
I lean and loafe at my ease, observing a spear
[ of summer grass.

Houses and rooms are full of perfumes—the
[ shelves are crowded with perfumes;
I breathe the fragrance myself, and know it and
[ like it;
The distillation would intoxicate me also, but I
[ shall not let it.

The atmosphere is not a perfume—it has no taste
[ of the distillation—it is odorless;
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become
[ undisguised and naked;
I am mad for it to be in contact with me.

The smoke of my own breath;
Echoes, ripples, buzz’d whispers, love-root,
[ silk-thread, crotch and vine;
My respiration and inspiration, the beating of my
[ heart, the passing of blood and air through
[ my lungs;
The sniff of green leaves and dry leaves, and of
[ the shore, and dark-color’d sea-rocks,
[ and of hay in the barn;
The sound of the belch’d words of my voice,
[ words loos’d to the eddies of the wind;
A few light kisses, a few embraces, a reaching
[ around of arms;
The play of shine and shade on the trees as the
[ supple boughs wag;
The delight alone, or in the rush of the streets,
[ or along the fields and hill-sides;
The feeling of health, the full-noon trill,
[ the song of me rising from bed and
[ meeting the sun.

A child said, What is the grass? fetching it to me
[ with full hands;
How could I answer the child? I do not know
[ what it is, any more than he.

I guess it must be the flag of my disposition,
[ out of hopeful green stuff woven.

Or I guess it is the handkerchief of the Lord,
A scented gift and remembrancer, designedly
[ dropt,
Bearing the owner’s name someway in the
[ corners, that we may see and remark,
[ and say,
Whose?

The blab of the pave, the tires of carts, sluff of
[ boot-soles, talk of the promenaders;
The heavy omnibus, the driver with his
[ interrogating thumb, the clank of the shod
[ horses on the granite floor;
The snow-sleighs, the clinking, shouted jokes,
[ pelts of snowballs;
The hurrahs for popular favorites, the fury of
[ rous’d mobs;
The flap of the curtain’d litter, a sick man
[ inside, borne to the hospital;
The meeting of enemies, the sudden oath, the
[ blows and fall;
The excited crowd, the policeman with his star,
[ quickly working his passage to the centre of
[ the crowd;
The impassive stones that receive and return so
[ many echoes;
What groans of over-fed or half-starv’d who fall
[ sun-struck, or in fits;
What exclamations of women taken suddenly,
[ who hurry home and give birth to babes;
What living and buried speech is always vibrating
[ here—what howls restrain’d by decorum;
Arrests of criminals, slights, adulterous offers
[ made, acceptances, rejections with convex
[ lips;
I mind them or the show or resonance of them —
[ I come again and again.

I am the poet of the Body;
And I am the poet of the Soul.

The pleasures of heaven are with me, and the
[ pains of hell are with me;
The first I graft and increase upon myself—the
[ latter I translate into a new tongue.

I am the poet of the woman the same as the
[ man;
And I say it is as great to be a woman as to be
[ a man;
And I say there is nothing greater than the
[ mother of men.

I tramp a perpetual journey,
My signs are a rain-proof coat, good shoes, and a
[ staff cut from the woods; 1200
No friend of mine takes his ease in my chair;
I have no chair, no church, no philosophy;
I lead no man to a dinner-table, library, or
[ exchange;
But each man and each woman of you I lead
[ upon a knoll,
My left hand hooking you round the waist,
My right hand pointing to landscapes of
[ continents, and a plain public road.

Not I—not any one else, can travel that road
[ for you,
You must travel it for yourself.

It is not far—it is within reach;
Perhaps you have been on it since you were born,
[ and did not know;
Perhaps it is every where on water and on land.

Shoulder your duds, dear son, and I will mine,
[ and let us hasten forth,
Wonderful cities and free nations we shall fetch
[ as we go.

If you tire, give me both burdens, and rest the
[ chuff of your hand on my hip,
And in due time you shall repay the same service
[ to me;
For after we start, we never lie by again.

LINKS ÚTEIS

Poemas de Walt Whitman: http://www.blackcatpoems.com/w/walt_whitman.html
Arquivos: http://www.whitmanarchive.org/
Walt Whitman, o poeta da América: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/whitman.htm
Walt Whitman – Folhas de Ervas:
http://www.nivaldocordeiro.net/waltwhitmantodos.htm
Walt Whitman – Um Poeta Brilhante:
http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=367&rv=Literatura
“Folhas de Relva”: original e duas versões: http://www.cronopios.com.br/site/noticias.asp?id=800

Walt Whitman: o profeta da América Moderna: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=762

TESES E DISSERTAÇÕES

Walt Whitman e a formação da poesia norte-americana (1855-1867) –http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-21052007-145634/pt-br.php

A NEW YORK DE SOUSÂNDRADE E WALT WHIITMAN: http://www.assis.unesp.br/posgraduacao/letras/mis/pdf/v7/alessandra.pdf

*

Ângelo Luís

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