Poesia de Francisco Settineri – I

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Soneto Bailarino

Abre-te para o amor, pois quando venha,
Ele há de te encontrar despreparada,
Não deixa que o teu medo te detenha,
Exibe tua nudez, de madrugada.

Eu quebro a paz e vou, desmiolado,
Em busca de um amor sem amargura,
E quando chega a noite, estou cansado
De tanto procurar pela aventura.

Se isso faz de mim mais um Quixote,
Não faz de mim deixar de ser criança.
Se cinjo o verso e dele faço um mote,

Ele ficará sempre na lembrança.
Se trago os meus poemas como um dote,
São teus o meu cantar, e a minha dança!

*

Soneto do Amor Sereno

Amo-te co’a calma de altas palmeiras
E na alegria de cada momento;
Amo-te, balançando ao terno vento
E no crepitar de imensas fogueiras.

Porque a ventura de vidas inteiras
Pra mim foi alongada, em passo lento,
Meu amor por ti cada dia invento,
E no amanhecer abro novas leiras!

Mas há um quê em teu olhar de fada,
Misto de um todo no qual eu me inundo,
Que é certeza, e ao mesmo tempo é um nada,

Despe o meu ser, e me faz ir ao fundo.
Riso infantil, que me serve de escada,
O teu sorriso é um resumo do mundo.

*

Soneto do Segredo

De múltiplo corar, linda menina,
De quem eu soube ser o doce amigo,
E mesmo que me sirva de castigo,
Mil lágrimas chorar, a noite ensina.

E um pássaro a voar pela campina,
Em busca de amplo céu e seu abrigo,
Ensina-me a ficar em paz contigo,
Em lua de esplendor que me ilumina…

Mas quando o meu ocaso se avizinha,
Eu bebo a linda voz, risonha e pura,
Enquanto o coração em ti se aninha.

Se o meu amor por ti ninguém censura,
Não quero te deixar jamais sozinha,
É este o meu segredo e a minha jura!

*

Silêncios

Mulher, que tens o olhar tão inocente,
E a flor, em tuas mãos, mais colorida,
Trazes frescor ao coração, recente,
Ao despertar uma ternura havida.

Sem mais, em uma ânsia desabrida
Eu tomo, nesse laço incandescente,
A tua noite, em abraço de partida.
Silêncios de um sorriso comovente,

Tomados num sem-fim de fé primeira
E tidos num império, de repente,
A sentir a promessa alvissareira

De fazermos crescer o que é nascente.
Amar o ser da paz mais derradeira,
E, mesmo em tua ausência, estar presente.

*

Aquarela

Chegaste mansa em mim, insinuada tela,
Que sequer teve, jamais, a cor indevida.
Recebe em versos a homenagem devida,
Vem nua para mim, aberta cidadela!

Cúmplices as tardes de mãos dadas, a vela
Que carrega a nau pelos mares desta vida,
Era pouca a esperança de vê-la garrida,
Mas tu me vens com ar e graça de uma estrela.

Tivera antes, na vida, dita ou desdita,
Não me importaria de remover castelos.
Assim que calmo te espero, moça bonita,

Encantado pela visão de teus cabelos,
Na véspera de uma paixão que tenho, escrita,
E no antegozo, em graça, de teus lábios belos.

*

Estudo para uma Dama

Bem na hora em que te vejo, mulher, és flor
Envolta nas curvas de um vestido de prata.
Se meus braços te perseguem é porque, grata,
Recebeste em paz meu desejo e meu ardor.

Retira as vestes, atrevido destemor!
E deixa que minhas mãos percorram a mata
Do que já deste para mim, em prenda incauta.
É quando eu vejo a aurora debruar de cor,

Depois dos embates, em plena noite túrgida,
O desenhar-se, em nítida aquarela, do tema.
Em mananciais de luz, bordados na tez cândida,

Resolve-se, em tua pele, o breve teorema:
Ao envolver teu corpo em densa forma, esplêndida,
Um raro silêncio enlaça a névoa do poema…

*

Seleção de Poemas: Ângelo Luís

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