A POESIA DE JULES LAFORGUE

ImageJules Laforgue nasceu em Montevidéu – Uruguai, em 16 de agosto de 1860, descendente de uma família de origem bretã, França. Passou a infância em Tarbes e foi, em Berlim que durante vários anos trabalhou como leitor oficial, em francês, da imperatriz Augusta de Saxe-Weimar.

Poeta inventor, em seus experimentos linguísticos fez uso da ironia, da frase corrente e coloquial, inclusive o balbuciar e a descontinuidade sintática. Toda sua poesia, além disso, se acha repleta de exclamações e interjeições, o que se traduz em um ritmo entrecortado e muito marcante.
Jules Laforgue publicou 4 livros em vida: “Les Complaintes” (1885), “L’Imitation de Notre-Dame la Lune” (1886) – financiados por ele mesmo -, além de “Concile Féerique” (1886) e “Moralités Légendaires” (1887). Em 1890, três anos após sua morte, foram publicados os “Derniers Vers”. O suficiente para tornar-se mestre de T.S. Eliot (1888-1965); Ezra Pound (1885-1972 e Marcel Duchamp (1887-1968), além da grande influência deixada aos poetas brasileiros Pedro Kilkerry (1885-1917), Marcelo Gama (1878-1915), Manuel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e entre outros.
Conforme Wilson Coelho: ” A poesia de Jules Laforgue é aquela que faz bailar o pobre corpo humano que lamenta as paisagens da natureza com uma vontade que não tem desejos e, tampouco, piedade, porque a vontade é em potência, porém o desejo e a piedade são angústias metafísicas que impedem o des-velamento”.
Tradutor de Walt Whitman, Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever no verso livre, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática.
Os escritos de Jules Laforgue são também imbuídos de melancolia – spleen – pelo sentimento de desgraça, pelo pessimismo, em razão de sua vida solitária e por seu estudo dos filósofos alemães Arthur Schopenhauer e Eduard von Hartmann, e ainda o desejo intenso de fuga.
Faleceu em Paris em 20 de agosto de 1887.

***
DIMANCHES Nº 2
JULES LAFORGUE

Le Dimanche on se plaît
À dire un chapelet
À ses frères de lait.
Orphée, ô jeune Orphée!
Serials des coriphées
Aux soirs du fleuve Alphée…
Parcifal, Parcifal!
Étendart virginal
Sur les ramparts du mal…
Prométhée, Prométhée!
Phrase répercutée
Par les siècles athées…
Nabucodonosor!
Moloch des âges d’or
Régissez-nous encor?…
Et vous donc, filles d’Ève,
Soeurs de lait, soeurs de sève,
Des destines qu’on se rêve!
Salomé, Salomé!
Sarcophage embaumé
Où dort maint Bien-Aimé…
Ophélie toi surtout
Viens moi par ce soir d’août
Ce sera entre nous.
Salammbo, Salammbo!
Lune au chaste halo
Qui laves nos tombeaux…
Grande soeur, Messaline!
Ô panthère câline
Griffant nos mousselines…
Oh! même Cendrillon
Reprisant ses haillons
Au foyer sans grillon…
Ou Paul et Virginie,
Ô vignette bénie
Des ciels des colonies…
Psyché, folle Psyché,
feu-follet du péché,
vous vous ferez moucher!…

DOMINGOS Nº 2
Tradução: Régis Bonvicino

No domingo exerço
Dizer o meu terço
Às irmãs de berço.
Orfeu, belo Orfeu!
Harém, corifeu
Das margens do Alfeu…
Jovem Parsifal!
Pendão virginal
Nos muros do mal…
Preso Prometeu!
Plá que percorreu
Séculos ateus…
Nabuco’nosor
Moloch-esplendor
Nosso imperador?
Vós filhas de Eva
Irmãs, berço e seiva,
Destino que enleva!
Salomé de Nada!
Múmia embalsamada
Dormem as amadas…
Ofélia de tudo
Vinde a mim (outubro)
Sou surdo e sou mudo.
Casta Salambô!
A lua e seu halo,
Lava meu mantô…
Irmã Messalina!
Ó pantera fina
Rasga musselinas…
E tu Cinderela
Reprisa a novela
Palco sem janela!
Ou Paulo e Virgínia
Vinheta bendita
Dos céus das colônias…
Ó louca psique!
Pecado-nenê
Sem quê nem pra quê…

***

Locutions des Pierrots
JULES LAFORGUE

Encore un livre ; ô nostalgies
Loin de ces très-goujates gens,
Loin des saluts et des argents,
Loin de nos phraséologies !
Encore un de mes pierrots mort ;
Mort d’un chronique orphelinisme ;
C’était un coeur plein de dandysme
Lunaire, en un drôle de corps.
Les dieux s’en vont ; plus que des hures
Ah ! ça devient tous les jours pis ;
J’ai fait mon temps, je déguerpis
Vers l’Inclusive Sinécure !

Locuções do Pierrot
trad. Régis Bonvicino

Mais outro livro ; ó nostalgias
Longe de todo este gentio,
Do tal dinheiro e do elogio,
Bem longe das fraseologias!
De novo um dos meus pierrots morto;
Daquele crônico orfelinismo,
Coração pleno de dandismo
Lunar em um estranho corpo.
Nossos deuses se vão; sem cura,
Os dias, de mal a pior,
Já fiz o meu tempo. É melhor
Sim, entregar-se à Sinecura!

***

Cas Rédhibitoire (Mariage)
JULES LAFORGUE

Ah! mon ame a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.
Oh ! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes !…
J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.
Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire ?…

Caso redibitório (matrimônio)
Tradução de R. Bonvicino

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.
Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…
Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.
Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,

porém, uma ideia, mais clara?…

***

La chanson du petit hypertrophique
JULES LAFORGUE

C’est d’un’ maladie d’ coeur
Qu’est mort’, m’a dit l’ docteur,
Tir-lan-laire !
Ma pauv’ mère ;
Et que j’irai là-bas,
Fair’ dodo z’avec elle.
J’entends mon c?ur qui bat,
C’est maman qui m’appelle !

On rit d’ moi dans les rues,
De mes min’s incongrues
La-i-tou !
D’enfant saoul ;
Ah ! Dieu ! C’est qu’à chaqu’ pas
J’étouff’, moi, je chancelle !
J’entends mon c?ur qui bat,
C’est maman qui m’appelle !

Aussi j’ vais par les champs
Sangloter aux couchants,
La-ri-rette !
C’est bien bête.
Mais le soleil, j’ sais pas,
M’ semble un coeur qui ruisselle !
J’entends mon coeur qui bat,
C’est maman qui m’appelle !

Ah! si la p’tit’ Gen’viève
Voulait d’ mon coeur qui s’ crève.
Pi-lou-i !
Ah, oui !
J’ suis jaune et triste, hélas !
Elle est ros’, gaie et belle !
J’entends mon c?ur qui bat,
C’est maman qui m’appelle !

Non, tout l’ monde est méchant,
Hors le coeur des couchants,
Tir-lan-laire !
Et ma mère,
Et j’ veux aller là-bas
Fair’ dodo z’avec elle…
Mon coeur bat, bat, bat, bat…
Dis, Maman, tu m’appelles ?

CANÇÃO DO PEQUENO CARDÍACO
Tradução: Álvaro Moreyra

Foi de uma doença do coração
Que mamãe morreu, disse o doutor,
E que eu hei de ir lá onde ela está
Para dormir junto dela.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Todos riem de mim nas ruas,
Dos meus jeitos desengonçados;
Pareço um menino bêbado,
Meu Deus! É que o ar me falta,
Tenho medo de cair.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Às vezes vou pelos campos
Na hora do fim do dia
E choro, choro,
E o sol, não sei porque,
Me parece um coração aceso.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Ah, a vizinha Genoveva
Quisesse o meu coração…
Ah, se ela quisesse!
Sou amarelo, tão triste,
Ela é côr de rosa, alegre, bonita.
Escuto meu coração batendo,
É mamãe que me chama!

Sim, todo mundo é mau,
Menos o sol no poente
E mamãe.
E eu quero ir lá onde ela está
Dormir junto dela.
Meu coração bate, bate…

Mamãe, és tu que estás me chamando?

***

Dicas de livros

em construção

Dicas de sites e publicações úteis:

POEMAS TRADUZIDOS REVISTA ERRATICA: http://www.erratica.com.br/opus/100/index.html

em construção

BIBLIOGRAFIA EM PORTUGUÊS

BALAKIAN, A. O simbolismo. Tradução de José Bonifácio A.Caldas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1985.
FAUSTINO, M. Poesia-experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976.
FRIEDRICH, H. Estrutura da lírica moderna. Tradução de Marise M. Curioni. São Paulo: Duas Cidades, 1991.
HUTCHEON, L. Ironie et parodie: stratégie et structure. In: Poétique 36, 1978.
LAFORGUE, J. Litanias da lua. Tradução e organização de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1989.
MORETTO, F. (Org.). Caminhos do decadentismo francês. São Paulo: Edusp/Perspectiva, 1989
_____ Letras Francesas: estudos da literatura. São Paulo: Edunesp, 1994.
PEREIRA, M. H. R. Estudos de História da Cultura Clássica. 7 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulkbenkian, 0000 (Cultura Grega, 1).
PEYRE, H. A Literatura Simbolista. São Paulo: Cultrix: USP, 1983.
TELES, G. M. A “Belle Époque”. In: Vanguarda européia e Modernismo brasileiro:apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 11 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.
WILSON, E. O Simbolismo. In: O Castelo de Axel: estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930. Trad. de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1967.
_____ O Castelo de Axel – estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930. Trad.
José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2004

***

Ângelo Luís

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