Publicado em PAUL VERLAINE

PAUL VERLAINE

PAUL Marie VERLAINE nasceu no ano de 1844 em Metz, nordeste da França. Educado em Paris, trabalhou numa companhia de seguros e iniciou-se na vida literária, juntando-se ao grupo dos parnasianos, com Sully-Prudhomme, Catulle Mendes, François Coppée etc. Sob influência parnasiana escreveu o seu primeiro livro de versos, os Poemas saturniens (1866), mas já nas Fêtes galantes dava sinais de autonomia poética. Com La Bonne Chanson já estava liberto daquelas influências parnasianas, afirmando-se como um valor independente e de qualidade singular.

Durante a Comuna de Paris teve de exilar-se. Tendo conhecido Artur Rimbaud, de quem se tornou grande amigo, deixou a esposa e empreendeu com o amigo uma viagem à Bélgica e à Inglaterra. Desentendendo-se de Rimbaud em Bruxelas, tentou matá-lo e foi condenado a dois anos de prisão. No isolamento do cárcere, converteu-se à religião católica.
Publicou então Sagesse, e a seguir Jadis et naguère, Armour, Parallèlement, Bonheur entre outras obras.

Faleceu em 1896, em Paris, aos 52 anos de idade.

*

CANÇÃO
Tradução: Onestaldo de Pennafort

O céu azul Do telhado
repousa em calma.
Uma árvore sobre o telhado
balança a palma.

A voz de um sino mansamente
ressoa no ar.
Um passarinho mansamente
põe-se a cantar.

Meu Deus, meu Deus, esta é que é a vida,
simples, tranquila,
Como o rumor suave de vida
que vem da vila.

— Tu, que aí choras, que é que fizeste,
dize, em verdade,
tu que aí choras, que é que fizeste
da mocidade?

*

CHANSON D’AUTOMNE
Paul Verlaine

Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

CANÇÃO DO OUTONO
Tradução: Alphonsus de Guimaraens

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh’alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido…

CANÇÃO DO OUTONO
Tradução: Onestaldo de Pennafort

Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.

CANÇÃO DE OUTONO
Tradução: Guilherme de Almeida

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.

***

GREEN
Paul Verlaine

Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches
Et puis voici mon coeur qui ne bat que pour vous.
Ne le déchirez pas avec vos deux mains blanches
Et qu’à vos yeux si beaux l’humble présent soit doux.

J’arrive tout couvert encore de rosée
Que le vent du matin vient glacer à mon front.
Souffrez que ma fatigue à vos pieds reposée
Rêve des chers instants qui la délasseront.

Sur votre jeune sein laissez rouler ma tête
Toute sonore encore de vos derniers baisers ;
Laissez-la s’apaiser de la bonne tempête,
Et que je dorme un peu puisque vous reposez.

GREEN
Tradução: Onestaldo de Pennafort

Aqui estão frutos, flores, folhas, que eu vos trouxe,
E um coração que só por vós sabe pulsar
Não o despedaceis com vossa mão tão doce,
E possa o humilde dom ser grato ao vosso olhar.

Ainda tenho no rosto o orvalho que a alvorada
Vem regelar em mim com sua viração
Que esta minha fadiga, a vossos pés prostrada,
Sonhe os instantes bons que a reconfortarão.

Deixai rolar no seio moço a frente lenta
Em que ainda ecoam vossos beijos musicais;
Deixai-a sossegar da bendita tormenta
E que eu durma um instante enquanto repousais.

***

ARIETA
Tradução: Guilherme de Almeida

Chora não sei que mal
Como chove na rua;
Que lânguida emoção
Me invade o coração

Ó frio murmúrio!
Nas telhas e no chão!
Para um coração vazio,
Ó aquele murmúrio!

Chora não sei que mal
Meu coração cansado.
Um desengano? — Qual!
É sem causa este mal.

É a maior dor — dói tanto! —
Não se saber porquê,
Sem ódio ou amor, no entanto,
O coração dói tanto.

*

MON RÊVE FAMILIER
Paul Verlaine

Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur, transparent
Pour elle seule, hélas ! cesse d’être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse ? – Je l’ignore.
Son nom ? Je me souviens qu’il est doux et sonore
Comme ceux des aimés que la Vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des voix chères qui se sont tues.

MEU SONHO FAMILIAR
Tradução: Luís Martins

Às vezes sonho o sonho estranho e persistente
de uma mulher que eu amo e me é desconhecida.
Sempre a mesma não é essa mulher querida.
mas também, certo, não é outra totalmente.

Ele me compreende e me ama… Tão somente
a essa mulher desvendo o coração e a vida.
Mas também minha fronte, pela dor ferida,
ela só é quem sabe afagar, docemente…

Ela é morena, ou loura, ou ruiva? — Eu o ignoro.
Seu nome! Apenas sei que é doce que é sonoro
como os nomes de amantes que a Vida exilou.

Parece olhar de estátua o seu olhar vazio.
E tem na voz, longínqua e calma, o lento, o frio,
o triste acento de uma voz que se calou…

***

ART POÉTIQUE
Paul Verlaine

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.

C’est des beaux yeux derrière des voiles,
C’est le grand jour tremblant de midi,
C’est, par un ciel d’automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles !

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance !
Oh ! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor !

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L’Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l’Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine !

Prends l’éloquence et tords-lui son cou !
Tu feras bien, en train d’énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l’on n’y veille, elle ira jusqu’où ?

O qui dira les torts de la Rime ?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d’un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime ?

De la musique encore et toujours !
Que ton vers soit la chose envolée
Qu’on sent qui fuit d’une âme en allée
Vers d’autres cieux à d’autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym…
Et tout le reste est littérature.

ARTE POÉTICA
TRADUÇÃO: Augusto de Campos

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar,
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Pesar as palavras será preciso,
Mas com algum desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
o lusco-fusco no meio-dia,
a turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
Nuance, só, que nos afiance
O sonho ao sonho e a flauta na alma!

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,
Frase de espírito, Riso alvar,
Que o olho do Azul faz lacrimejar,
Alho plebeu de baixa cozinha!

A eloqüência? Torce-lhe o pescoço!
E convêm empregar de uma vez
A rima com certa sensatez
Ou vamos todos parar no fosso!

Quem nos dirá dos males da rima!
Que surdo absurdo ou que negro louco
Forjou em jóia este toco oco
Que soa falso e vil sob a lima?

Música ainda, e eternamente!
Que teu verso seja vôo alto
Que se desprende da alma no salto
para outros céus e para outra mente.

Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enchem de aroma o timo e a hortelã…
E todo o resto é literatura.

*

Publicações úteis:

em breve, mais dicas interessantes!

Poemas em francês:

http://poesie.webnet.fr/lesgrandsclassiques/poemes/paul_verlaine/index.html

***

Ângelo Luís

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