UN COUP DE DES JAMAIS N’ABOLIRA LE HASARD

Un Coup de Dés (1897), de Stephane Mallarmé, é um poema onde a ideia encontra sua forma exata: a linguagem. A linguagem como exteriorização do espírito não é suficiente para fazer um poema, é preciso que o poema seja em sua forma essa mesma Ideia, ou seja, Mallarmé pretendia demonstrar que esse espírito que é tanto matéria sensível ou natureza quanto reflexão, pensamento…
O poema deixaria de ser reflexão e se transformaria em natureza, natureza que está em constante transformação.
Conforme Larissa Drigo Agostinho em A poesia de S. Mallarmé (2011), no poema constelação Un Coup de Dés, “Mallarmé entendia como natureza não a natureza pensada, mas a natureza mesma, como acaso, aquilo que escapa de qualquer racionalização. O poema é essa natureza em seu ‘desaparecimento vibratório’, a dissolução provocada na fala, pois o poema se constitui – como nos informa o poeta em seu prefácio – como uma partitura, música. Ele foi pensado como dissolução sem fim”.
Un Coup de Dés é uma narrativa, uma narrativa narra fatos; no caso de Mallarmé, porém, trata-se da narração de uma hesitação, como Hamlet, a questão seria aqui: lançar ou não lançar os dados? “Le maître” hesita porque se os dados forem lançados, o número viria pelo acaso, ou seja, o ato de lançar o dado é sempre uma confirmação do acaso: “si c’était un nombre, ce serait […] le hasard”.
Em Un Coup de Dés o poema ideia e linguagem se encontram numa forma suficientemente maleável, como o verso livre, onde o acaso pode se fazer presente sem, por isso, arruinar toda a estrutura do poema. O poema é, portanto, a realização da idéia mallarmeana de linguagem, uma dissolução de si no tempo e no espaço, como música, e a inscrição deste devir, nas letras. O poema mallarmeano é assim como o Livro, uma cosmologia, ele se rende ao acaso, ao mesmo tempo em que almeja, intelectualmente, formalizá-lo.
De acordo com Augusto de Campos em pontos-periferia-poesia concreta (1956), “Un Coup de Dés fez de Mallarmé o inventor de um processo de composição poética cuja significação se afigura comparável ao valor da “série”, introduzida por Schönberg, purificada por Webern e, através da filtração desse, legada aos jovens músicos eletrônicos, a presidir os universos sonoros de Boulez ou Stockhausen”.
No seminal plano piloto para poesia concreta (Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari; 1958), o Un Coup De Dés, de Mallarmé é definido como um poema percursor, ou seja, “o primeiro salto qualitativo: “subdivisions prismatiques de l’idée”; espaço (blancs) e recursos tipográficos como elementos substantivos da composição”.
O poema Un Coup de Dés foi escrito por Mallarmé em 1897 e publicado em maio daquele mesmo ano na revista Cosmopolis, mas foi lançado em forma de livro somente em 1914, 16 anos após a morte do autor, baseado em suas extensas notas e exigentes instruções do autor para publicação.
A tradução brasileira de Un Coup de Dés Jamais N’abolira Le Hasard, Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso de Haroldo de Campos, foi publicada em 1971 no livro Mallarmé, uma antologia de poemas bilungues onde apresenta-se parte substancial da obra poética de Mallarmé, como por exemplo, alguns dos principais sonetos e peças curtas; o Fauno; e obviamente, o poema-constelar Um Lance de Dados (Un Coup de Dés), matriz de toda poesia de vanguarda.

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Ângelo Luís

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