3 poemas de Rainer Maria Rilke, traduzidos por Augusto de Campos

Tumbas das Hetairas (Rainer Maria Rilke / Augusto de Campos)

Em seus longos cabelos elas jazem, 
rostos escuros, encerrados em si mesmos, 
olhos cerrados como se distantes. 
Esqueletos e bocas, flores. E nas bocas 
dentes polidos, como num xadrez de bolso, 
peças enfileiradas em marfim. 
Flores, pérolas amarelas, ossos finos 
e mãos e mantas, murchas vestimentas, 
e lá no fundo, o coração cravado. 
Mas sob anéis e talismãs e pedras 
de olhos azuis (regalos preferidos), 
ainda resta, em sua cripta, o sexo mudo, 
cumulado de pétalas de flores. 
Pérolas amarelas, ainda, esparsas,— 
pratos de terracota, curvos, adornados 
de suas imagens, cacos verdoengos 
de jarras de óleo olentes como flores, 
miniaturas de deuses e altares, 
céus de hetairas, deuses desejantes. 
Cintos soltos, escaravelhos-pedras, 
vultos pequenos com enormes falos, 
boca ridente, atletas, dançarinas, 
fíbulas de ouro, como arcos de caça 
para amuletos de animais e pássaros, 
e agulhas finas, utensílios raros, 
e sobre um vaso circular, vermelho, 
como a negra inscrição de algum portal, 
as pernas rígidas de uma quadriga. 
De novo flores, perólas roladas, 
as ancas lisas da pequena lira, 
e dentre os véus que caem como névoa, 
como se de crisálidas-sandálias: 
a borboleta leve de um artelho.
Jazem assim, acúmulo de coisas, 
coisas preciosas, pedras, jóias, jogos, 
bagatelas (caidas sobre elas) 
no escuro, como se o leito de um rio.

Pois elas foram rios, 
e em ondas breves e velozes, nelas, 
precipitaram-se os corpos de jovens 
(que ansiavam só por uma vida nova) 
e torrentes de homens irromperam. 
E às vezes os meninos das colinas 
da infância vinham em tímidas quedas, 
brincavam com as coisas até quando 
a cachoeira enchia os seus sentidos:

Então davam à água rasa e clara 
toda a extensão dos cursos expansivos 
e enfrentavam remoinhos e águas fundas, 
refletindo, pela primeira vez, as margens 
e a voz dos pássaros ao longe —, e as noites 
estelares de um país ameno abriam 
um céu que nunca mais se fecharia.
Hetären-Gräber (Rainer Maria Rilke)

In ihren langen Haaren liegen sie 
mit braunen, tief in sich gegangenen Gesichtern. 
Die Augen zu wie vor zu vieler Ferne. 
Skelette, Munde, Blumen. In den Munden 
die glatten Zähne wie ein Reise-Schachspiel 
aus Elfenbein in Reihen aufgestellt. 
Und Blumen, gelbe Perlen, schlanke Knochen, 
Hände und Hemden, welkende Gewebe 
über dem eingestürzten Herzen. Aber 
dort unter jenen Ringen, Talismanen 
und augenblauen Steinen (Lieblings-Angedenken) 
steht noch die stille Krypta des Geschlechtes, 
bis an die Wölbung voll mit Blumenblättern. 
Und wieder gelbe Perlen, weitverrollte, – 
Schalen gebrannten Tones, deren Bug 
ihr eignes Bild geziert hat, grüne Scherben 
von Salben-Vasen, die wie Blumen duften, 
und Formen kleiner Götter: Hausaltäre, 
Hetärenhimmel mit entzückten Göttern. 
Gesprengte Gürtel, flache Skarabäen, 
kleine Figuren riesigen Geschlechtes, 
ein Mund der lacht und Tanzende und Läufer, 
goldene Fibeln, kleinen Bogen ähnlich 
zur Jagd auf Tier- und Vogelamulette, 
und lange Nadeln, zieres Hausgeräte 
und eine runde Scherbe roten Grundes, 
darauf, wie eines Eingangs schwarze Aufschrift, 
die straffen Beine eines Viergespannes. 
Und wieder Blumen, Perlen, die verrollt sind, 
die hellen Lenden einer kleinen Leier, 
und zwischen Schleiern, die gleich Nebeln fallen, 
wie ausgekrochen aus des Schuhes Puppe: 
des Fußgelenkes leichter Schmetterling.

So liegen sie mit Dingen angefüllt, 
kostbaren Dingen, Steinen, Spielzeug, Hausrat, 
zerschlagnem Tand (was alles in sie abfiel), 
und dunkeln wie der Grund von einem Fluss.
Flussbetten waren sie, 
darüber hin in kurzen schnellen Wellen 
(die weiter wollten zu dem nächsten Leben) 
die Leiber vieler Jünglinge sich stürzten 
und in denen der Männer Ströme rauschten. 
Und manchmal brachen Knaben aus den Bergen 
der Kindheit, kamen zagen Falles nieder 
und spielten mit den Dingen auf dem Grunde, 
bis das Gefälle ihr Gefühl ergriff:

Dann füllten sie mit flachem klarem Wasser 
die ganze Breite dieses breiten Weges 
und trieben Wirbel an den tiefen Stellen; 
und spiegelten zum ersten Mal die Ufer 
und ferne Vogelrufe –, während hoch 
die Sternennächte eines süßen Landes 
in Himmel wuchsen, die sich nirgends schlossen.

(1904)

*


Lamento de uma Jovem (Rainer Maria Rilke / Augusto de Campos)

A inclinação que nos vem do passado, 
quando crianças, sempre tão constante, 
de sermos sós, era algo delicado; 
para os demais era luta cada instante, 
e cada qual tinha o seu lado, 
o seu perto, o seu distante, 
um chão, um cão, um quadro.

E eu ainda achava que a vida 
nunca cessaria de doar, 
e que é em nós mesmos nosso lar. 
Não sou em mim a minha preferida? 
O que é meu não há mais de ter confiança 
e me entender como quando era criança?

Súbito, estou como entre alheios, 
e em algo que me ultrapassa 
a solidão se muda em mim, 
quando, do alto dos meus seios, 
meus sentimentos clamam por asas 
ou por um fim.

Mädchenklage (Rainer Maria Rilke)

Diese Neigung, in den Jahren, 
da wir alle Kinder waren, 
viel allein zu sein, war mild; 
andern ging die Zeit im Streite, 
und man hatte seine Seite, 
seine Nähe, seine Weite, 
einen Weg, ein Tier, ein Bild.

Und ich dachte noch, das Leben 
hörte niemals auf zu geben, 
dass man sich in sich besinnt. 
Bin ich in mir nicht im Größten? 
Will mich Meines nicht mehr trösten 
und verstehen wie als Kind?

Plötzlich bin ich wie verstoßen, 
und zu einem Übergroßen 
wird mir diese Einsamkeit, 
wenn, auf meiner Brüste Hügeln 
stehend, mein Gefühl nach Flügeln 
oder einem Ende schreit.

(1906)

 

*

O Encantador de Serpentes (Rainer Maria Rilke / Augusto de Campos)

Quando na praça, ondeando, o encantador 
toca a flauta que embala e entorpece, 
às vezes ele atinge ao seu redor 
alguém, em meio à turba, e o adormece,

e o faz entrar no círculo da flauta, 
que quer e quer e quer e vai e volta, 
até que emerja a cabeça alta 
do réptil, que do seu cesto se solta,

alternando tontura e lassidão, 
o que expande e tensiona e o que represa —; 
basta um olhar daquele indiano, então, 
para infundir no outro uma estranheza

que te mata. Como se de repente 
o céu caísse. De súbito estrias 
racham-te o rosto. Há especiarias 
na memória boreal e a tua mente

de nada serve. Inútil, a magia. 
O sol fermenta, vêm febres ferventes, 
os raios têm maléfica alegria 
e o veneno cintila nas serpentes.

 

Schlangen-Beschwörung (Rainer Maria Rilke)

Wenn auf dem Markt, sich wiegend, der Beschwörer 
die Kürbisflöte pfeift, die reizt und lullt, 
so kann es sein, da er sich einen Hörer 
herüberlockt, der ganz aus dem Tumult

der Buden eintritt in den Kreis der Pfeife, 
die will und will und will und die erreicht, 
dass das Reptil in seinem Korb sich steife 
und die das steife schmeichlerisch erweicht,

abwechselnd immer schwindelnder und blinder 
mit dem, was schreckt und streckt, und dem, was löst -; 
und dann genügt ein Blick: so hat der Inder 
dir eine Fremde eingeflößt,

in der du stirbst. Es ist als überstürze 
glühender Himmel dich. Es geht ein Sprung 
durch dein Gesicht. Es legen sich Gewürze 
auf deine nordische Erinnerung,

die dir nichts hilft. Dich feien keine Kräfte, 
die Sonne gärt, das Fieber fällt und trifft; 
von böser Freude steilen sich die Schäfte, 
und in den Schlangen glänzt das Gift.

 (1907/8)

 

fonte: Goethe Institut

*

Ângelo Luís

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