POESIA E FIM DO FUTURO, SEGUNDO OCTAVIO PAZ

POESIA E FIM DO FUTURO, SEGUNDO OCTAVIO PAZ

Artigo publicado originalmente no jornal FOLHA DE S. PAULO em 1 de junho de 1974

Pesquisa e revisão do texto: Ângelo Luís e Francisco Settineri – DITIRAMBOS

São Paulo – Porto Alegre, 3 de setembro de 2012

Solo a Dos Voces, que reúne em entrevista, enriquecida por ilustrações e excertos da obra do escritor, o poeta, ensaísta e diplomata mexicano Octavio Paz e seu amigo e repórter Julián Ríos, é um desses livros que representam verdadeiros termômetros do pensamento artístico, com repercussões por uma ou mais décadas. Em respostas diretas e explícitas, Paz fala de sua obra, de arte em geral, de política e, mesmo, de sua vida particular.

Diplomata, apesar de muito inquieto no terreno das ideias, defende-se no livro da acusação de colaboracionista, dizendo que é quase impossível encontrar um escritor mexicano que não tenha estado a serviço do governo. O que não impede de, ao longo da entrevista, dizer coisas assim:

 “A idade moderna tinha situado o paraíso no futuro e hoje, creio, vivemos a época do fim do futuro, do ocaso dessa ideia. Sabemos agora onde acabam todas essas ideologias progressistas que não são senão uma interpretação simplista da evolução de Darwin… Acredito que agora, em 1971 (quando foi feita a entrevista), podemos ver com maior clareza o sentido do progresso. Os dois países que encabeçam o progresso são os Estados Unidos e a União Soviética e ambos criaram sociedades profundamente injustas. Os dois paraísos, o capitalista e o socialista, se converteram em dois exemplos de inferno… Não estou muito a favor da ideia do paraíso, e não estou porque os paraísos, em geral, os de amanhã e os de agora, terminam em construções geométricas do inferno. Inclusive os paraísos espontâneos dos hippies. São realmente espontâneos ou são uma busca de espontaneidade? Não, não é a ideia do paraíso que me fascina, mas do reaparecimento do corpo no século XX. Nesse sentido me sinto muito próximo de um escritor obcecado por certos mitos corporais como D.H. Lawrence. Em outra tendência da literatura e da arte dos nossos dias – o surrealismo – o retorno do corpo está ligado à exaltação do amor. A mim me parece que a atitude do surrealismo – exaltação do erotismo mas também exaltação do amor único – é um corretivo a certo tipo de atitudes niilistas que ocorreram na França e nos Estados Unidos a propósito do amor. Mas voltemos ao tema da volta ou ressurreição do corpo. O tempo do corpo é ele agora. Assim, pois, não é um tempo paradisíaco porque agora é mortal. O paraíso suprime a morte, mas sem morte não há prazer… Portanto, a grande conquista do mundo moderno seria, através do agora, afirmar simultaneamente a morte e a vida. Conseguir que o homem pudesse enfrentar o fato de ser mortal, não com alegria, porque isso é impossível, mas com serenidade. Com heroísmo alegre, com alegre sensualidade. O agora do corpo, assim seja por um instante, nos reconcilia com a morte. Cada vez que nos enamoramos de outro corpo sabemos que ele é mortal e que nós também o somos. Não, nada de dizer “paraíso agora” mas “vida agora”! A vida é o que conta. Deixemos o paraíso aos animais e anjos”.

 DESAPARECIMENTO DO LIVRO

Mais adiante, iniciando uma discussão sobre a crítica, Julián Rios pergunta se Octavio Paz não crê que, em certa medida, “algumas experiências literárias atuais são uma réplica a esses argumentos que, a partir da deformação das teorias de McLuhan, predizem o desaparecimento do livro no futuro”.
“Não sei, talvez tenha razão”, responde Octavio Paz. “Mas as profecias sobre o desaparecimento do livro são anteriores a McLuhan. Quando Apollinaire publicou “Calligrammes”, alguns dos seus velhos amigos condenaram essa incursão na poesia visual. Ele contestou dizendo que os “Caligrammes” eram uma homenagem à poesia escrita no momento em que a tipografia, brilhantemente, encerrava sua carreira e se iniciavam novas formas de comunicação, como o fonógrafo e o cinema. Isso, dizia Apollinaire em 1917. Não se garante o desaparecimento do livro mas diz-se que a tipografia encerra sua carreira”.
“E você acredita que a tipografia encerra, realmente sua carreira:?” pergunta Julián Rios.

“Não”, responde Paz e acrescenta: “não creio que a tipografia vá desaparecer. Pelo contrário, vive um de seus melhores momentos. O que está em crise é o livro, melhor dizendo, o monopólio do livro.” O poeta fala então de Mallarmé, que inventou um novo tipo de livro – mentalmente, porque nunca o realizou – que não é nem jornal nem livro. Esse novo objeto, que é a transmutação e a tradução do universo e que é por si mesmo um universo, não é um livro feito de páginas cosidas ou coladas, pois se converte num montão de folhas soltas que se distribuem de um modo caprichoso no momento da leitura e voltam a juntar-se como se tratasse de um leque”.
Julian Rios argumenta que a novela, por exemplo, perdeu grande parte de sua função de entretenimento porque surgiu um método mais eficaz, o cinema, o mesmo acontecendo com a fotografia, que obrigou a pintura a buscar seus próprios fundamentos e a livrou de ser mera reprodutora da realidade. Octavio Paz concorda, mas acha que se deve fazer uma outra crítica a McLuhan, que faz depender as mudanças das sociedades das mudanças dos meios de comunicação. “O contrário é o certo”, diz o escritor mexicano: “os meios de comunicação fazem parte da sociedade e quando ela muda eles também mudam”.
Voltando ao problema da literatura contemporânea, Octavio Paz afirma que o se passa com o livro, a revista e o jornal, é que agora há outros meios de comunicação como o cinema, por exemplo, que realmente representam um desafio.

POESIA CONCRETA

Octavio Paz declara-se também admirador de vários poetas concretos: “ele próprio tentou esse caminho. “Mas”, argumenta, “os recursos da poesia concreta são limitados”. Depois de tudo, a linguagem se desfaz no tempo. A palavra é temporal: é o discurso, o curso. Isso Joyce viu admiravelmente. Não é por acaso que sua preocupação por ele esteja em relação com sua preocupação com o tempo. A forma que adotou no “Finnegans Wake” é o discurso, o curso, o curso do rio que recorre, o recurso… A poesia concreta é o recurso contra o discurso, é cortar a possibilidade de o discurso transcorrer. Há um momento em que isso nos conduz ao silêncio. À a-literatura, à negação da literatura”.

LITERATURA MARGINAL

Em outro trecho da entrevista a Julián Rios, diz Octavio Paz que “se um escritor não tem boas relações com a linguagem – se se serve das palavras ao invés de ser seu servidor – tampouco terá boas relações com a história e será servidor dos poderes deste mundo… O Borges que eu amo é o Borges negador deste mundo e de seus poderes, o escritor hermético que fez de sua linguagem um sistema preciso de negações e que assim se opunha “ao peronismo” e ao que o antecedeu. O Borges que opunha sua insolência à falsa comunicação, o Borges solitário e que não era um escritor compreensível. Agora ele se tornou um escritor compreensível, um escritor social, e isso o levou a escrever todas essas coisas que anda escrevendo. Não, a literatura – ao menos na idade moderna – não pode ser e não é senão anti-social ou a-social. A única maneira que a literatura tem de ser central é conservar sua marginalidade. Em nome do compromisso político se tem escrito muito má literatura em língua espanhola. Em realidade não houve “compromisso”, senão dimensão crítica… Sim, faltas morais e políticas são o resultado de faltas diante da linguagem – moral poética e moral política são inseparáveis”.

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