CARTACANTO

CARTACANTO

(José Lino Grünewald)

desfinquei meu destino sob as pétalas
ricas rosas de rilke e de ronsard
depois caí do sonho e nevermore
meu corvo privativo aponta zero
do zero ao zênite, do zéfiro ao z
o z do fim de um alfabeto em onde
brincamos borboletras, despousamos
frases feitas. os fios de falares
numa dança entre língua e linguagem. só?
lacuna, ausência, o nada, o vazio, o vago
vaso onde mergulhamos as palavras.
as mirimagens de esperânsias, pétalas
pétalas novamente apagam tédios.
voltas o sonho azul daquelas rosas –
pétalas (rilke), e escrever (o quê?)
e após tombar, fenecer, ir, cair,
adeus: sem saber nada sobre a morte.
e sobre a vida, o renascer, processo?
nada de nada de nenhuma coisa.
só restam ócios de ossos nesse ocaso.
‘a bracelet of bright hair about the bone’
(donne) acaso, migalhas
de brilhos. e lazeres de ofício ou
sobras de esguichos aromáticos.
as sombras nos saúdam multinegras
há um corredor, córrego de dúvidas
vivermorrer é estar entre (o processo)
e reencarnamo-nos em flores.
pássaros rápidos, ondas ao léu, gases,
poetas. volta a luta vã com as palavras.
voltam as musas, lebre, mulher, pedra.
volta o silêncio, o duro severo rigor
‘in my craft or sullen art’ (thomas),
e aqui me resto parlapatando
verbos ao vento, várias vagas vozes
em que me desespelho, versejando
em busca da primeira e única, única
autopalavra de ordem: sossego.

*

Ângelo Luís

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