Poesia de Francisco Settineri – II

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Pantomima

Do esquecimento frio, que poderia
Trazer de novo a paz ao velho alento
Restou apenas pó largado ao vento
E o nojo atroz em plena maresia…

Mascara-se o algoz na confraria
Que audaz já decapita o sentimento,
Galope que inaugura o violento
E atira aos céus quebrada urna vazia…

A praga da memória que desmaia
Naufraga movediça nos meus medos
Que boiam entre escolhos nesta praia

Por entre malhas, algas e enredos:
Nos céus, a tempestade grita a vaia
E a vaga que arrebenta em teus rochedos!

 

*

Sobranceiro

O suave olhar e o tato
E o andar que mostra o tino
Não definem o ar felino
Nem seu íntimo substrato…

No seu sentido mais lato,
Afastado do humano
É que habita um bichano
Pois senão seria um pato!

Pra si mesmo ele ronrona
Sem saber demais do mundo
E jamais se trouxe à tona

O que pensa, enfim, no fundo:
Pede amor pra sua dona
A miar, tão vagabundo…

 

*

Soneto Acidentado

Assustada, assim sofrida, em surda insônia
Que soçobra em santa insânia, ao senso certo,
É que sabes do insolente desconcerto
De saber que tu és do sono sem notícia!

No ressaibo desse sal fica a facécia,
Da saudade sobressai o sumo asserto:
Em sonhado abraço fica o cetro incerto,
Insensata sensação em séria audácia.

Assumida a fina essência que me assalta,
Por saber da saga audaz, mesmo na sanha
A sombria noite assume e assim ressalta

A serena solidão que a sede amanha:
Soam fúrias nessas saturnais da falta,
Verso solto e o som da sílaba se assanha!

 

*

Soneto Estremecido

Desafio a paz e busco-te na fonte
Em que banhas, calma, os pés, tão docemente
E o clamor que está nas vestes não desmente
A centelha que me acende a noite insonte…

Pois tu foste para mim novo horizonte
A se abrir feito uma rosa à minha frente
E se o encontro de nós dois foi indecente,
Firme abraço entre essas almas foi a ponte.

O zeloso olhar na pele quer a vida,
Mas a fria lança finca a terra e ofende
E ressoa solta em versos, distraída

Nesse mar de cal fatal que ao ar resplende,
Eis que a letra é seca lágrima esquecida
E o silêncio é grande e até ao céu se estende!

 

*

Quasímodo

Eu busco nessas torres teu vestígio
E o tom em tua voz, que deslumbrada
Vivias na esperança de, amada,
Ser fonte de alegria em meu ofício…

E tinhas no altar do meu prestígio
Soberba fonte, etérea e venerada,
Saída desta face estropiada
Que tua foi amante, desde o início…

Perdido na penumbra o raro anseio
No embalo da saudade, essa trapaça
Que é, dentre os meus males, o mais feio

Eu levo uma lembrança que me abraça
E beijo o novo encanto que não veio
No avesso dessa noite que não passa…

 

*

Identidade

Quem serei eu, neste barco,
Se não sei que caminhos terei?
A viagem, longa, é tão distante
Que não sei, se sou eu ou me sonhei.

O sonho do meu sonho vem à mente
E adormeço, clandestinamente.
Em sonhado de mim, me abarco:
Serei mundo, terei alvo?
Ou serei arco, somente?

Sinto a música do instante
E chamo o meu verso:
Rima, fado, consoante,
A cantar da nudez de mim
O corpo, tão diverso.

*

Seleção de Poemas:  Ângelo Luís

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