A INTERPRETAÇÃO DA OBRA LITERÁRIA

 A INTERPRETAÇÃO DA OBRA LITERÁRIA

Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 5 de março de 1988.

ALFREDO BOSI

Se os sinais gráficos que desenham a superfície do texto literário fossem transparentes, se o olho que neles batesse visse de chofre o sentido ali presente, então não haveria forma simbólica, nem se faria necessário esse trabalho tenaz que se chama interpretação.

Acontece, porém, que as palavras não são diáfanas. Ainda quando miméticas ou fortemente expressivas, elas são densas até o limite da opacidade. Esse fenômeno é estrutural. O processo em que se gesta a escrita percorre campos de força contraditórios, em parte subtraídos à luz de uma consciência vigilante e sempre dona de si própria.

Na invenção do texto enfrentam-se pulsões vitais profundas (que nomeamos com os termos aproximativos de desejo e medo, princípio do prazer e princípio de morte) e correntes culturais não menos ativas que orientam os valores ideológicos, os padrões de gosto e os modelos de desempenho formal.

A cultura, porque é trabalho e projeto, transforma, conservando, o ímpeto que levaria à efusão imediata dos afetos. Assim sendo, como poderia ser translucido o resultado de um percurso cuja natureza lembra menos a rota batida que o labirinto?

A palavra que eu leio (“lego”: colho) na sua ingrata renitência sobre a página do livro, desafia-me como a pergunta da Esfinge. A resposta pode variar ao infinito, mas o enigma é sempre o mesmo: o que eu quero dizer?

Ler é colher tudo quanto vem escrito. Mas interpretar é eleger (“ex-legere”: escolher), na messe das possibilidades semânticas, apenas aquelas que se movem no encalço da questão crucial: o que o texto quer dizer?

Não foi por acaso que o uso consagrou um verbo tão forte e tão incisivo: querer dizer. É como se a linguagem atribuísse à matriz do discurso uma potência simbolizante, uma vontade, imersa e difusa na zona pré-consciente dos seres, e que, apesar da sua força incoercível, não dispusesse de uma forma automática, capaz de transmiti-la, sem sombras nem duvidas, aos homens e à sociedade.

Entre o querer-dizer e o texto ultimado há a distância que separa (e afinal, une) o evento aberto e a forma que o encerra. A forma, nos casos de êxito, será o claro enigma que o poeta Carlos Drummond de Andrade escolheu como nome justo para a sua palavra.

Convém repetir os termos: evento e forma. Ambos foram luminosamente vistos por um filósofo italiano, de formação clássica, Carlo Diano, cujo opúsculo “Linee per una Fenomenologia dell’Arte”, merecia leitura atenta de nossos estudiosos de literatura.

Uma das vantagens teóricas da sua abordagem é deixar de lado a palavra conteúdo, tradicionalmente atada à palavra forma, e preferir outra mais rica e complexa, evento. Entende-se por evento todo acontecer vivido da existência que motiva as operações textuais, nelas penetrando como temporalidade e subjetividade.

Diz Carlo Diano:

“Evento é tomado ao latim e traduz o grego ‘tyche’. Evento é, portanto, não ‘quicquid évenit’ (tudo aquilo que acontece), mas ‘id quod cuique évenit, ó ti gígnetai ekásto’ (aquilo que acontece para alguém), como escreve o poeta Filêmon glosando Aristóteles. Que alguma coisa aconteça, não basta para produzir um evento; para que haja um evento é necessário que esse acontecer eu o sinta como um acontecer para mim. No entanto, se todo evento se abre à consciência como acontecimento, nem todo acontecimento é evento.”

Não desdobrarei aqui os nexos entre “evento”, “destino’ e “epifania do divino”, que o filósofo aponta como inerentes à história da palavra “tyche” na tradição helênica.

As notações seguintes aclaram o significado de evento.

Em primeiro lugar, quando a sua objetividade radical: “De evento não se pode falar senão em relação com um determinado sujeito e a partir do âmbito deste sujeito”.

Depois, quanto à inerência das coisas no evento:

“Não só os acontecimentos podem ser sentidos como eventos, mas também o que nós chamamos ‘coisas’, no ato pelo qual o homem adverte a existência delas como alguma coisa que existia para ele e não para si mesma.”

Fatos e coisas, não em si próprios, mas fatos-verbos e coisas-nomes, formam a trama íntima do evento para a consciência que o vive, que o contempla e o plasma na linguagem.

Enfim, quanto à estrutura espacio-temporal do evento:

“Como aquilo que sobrevém (ou oferece, produz-se, dá-se: outros modos de ler ‘évenit’) a alguém, o evento é sempre ‘nic et nunc’. Um raio golpeou uma árvore durante a noite, mas eu só o vejo pela manhã. O fato, caso venha a constituir para mim um evento, só o será quando o que ‘aconteceu’ se fizer atual como um ‘acontece’; e se a árvore não for apenas um dos muitos pontos no espaço, mas o meu ‘agora’.”

Em outras palavras: o infinito suceder cósmico e histórico, que nos precede, nos envolve e nos habita, sempre, e em toda a parte, do nascer ao morrer, só se torna um evento para o sujeito quando este o situa no seu aqui e o temporaliza no seu agora; enfim, quando o sujeito o concebe sob um certo ponto de vista e o acolhe dentro de uma certa tonalidade efetiva.

Em torno do evento subjetivado, na sua imensa e claro-escura periferia, vem e vai, inesgotável, “in gran mar dell’essere” de que fala Dante. O grande mar do ser, que a consciência poética só consegue penetrar quando lhe é dado sob as espécies do evento.

O evento, aquilo que me sobrevém, a mim e em mim, constitui-se como uma experiência significativa do sujeito, vivência aberta e múltipla, e que a forma só aparentemente encerra nos seus signos e símbolos.

A forma estaria para o evento assim como o nome-identidade de um homem está para a existência, plural e fluida, sua vida pessoal. A forma do poema e o nome do sujeito: claro enigma, ambos; ambos aparência e problema.

Cabe ao intérprete decifrar essa relação de abertura e fechamento, tantas vezes misteriosa, que a palavra escrita entretém com o não-escrito.

O intérprete é, por excelência, um mediador. Ele trabalha rente ao texto, mas com os olhos postos em um processo formativo relativamente distante da letra.

“Interpres” chamavam os romanos àquele que servia de agente intermediário entre as partes em litígio. Com o tempo, “interpres” assumiu também a função de “tradutor”: o que transporta o significado da sua forma original para outra; de um código primeiro para um código segundo; o que pretende dizer a mesma mensagem, mas de modo diferente. A interpretação opera nessa consciência intervalar, e ambiciona traduzir fielmente o mesmo, servindo-se dialeticamente do outro. O outro é o discurso próprio do hermeneuta.

Não usei ligeiramente os verbos “pretender” e “ambicionar” quando me referi ao projeto do intérprete. De fato, o que este deseja é tocar um alvo difícil: “elaborar um discurso de compreensão”. E segurar com a sua palavra o que já é, em si, a resultante formalizada de operações complexas de projeção, deslocamento, condensação, sublimação, degradação, mascaramento, desmascaramento, harmonização, ideologização…

O intérprete propõe para uma comunidade ideal de leitores (todos, intérpretes virtuais) um sentido inteligível, que torne universal o teor de um texto recebido na experiência singular da sua leitura. Para tanto, ele precisa sondar com amorosa atenção os vários estratos do querer-dizer. Na linguagem de Carlo Diano, o intérprete deveria resgatar para o leitor aquele evento complexo, subjetivo e histórico, ao qual o poeta deu uma forma. É por isso que a interpretação literária não pode deixar de ser um projeto cultural aberto.

Apoiada no exame de algumas estruturas textuais e contextuais, a interpretação tenta recompor aquele movimento para um sentido que atravessou o discurso a ser lido. É o “telos” que imanta e dá coerência aos dados colhidos a respeito da gênese psíquica e social do texto.

A origem, por sua vez, não é determinação absoluta. O ato de interpretar, enquanto mediador entre a forma e o evento, não quer submeter a escrita a uma “explicação” onipotente da sua gênese, pois essa atitude causalista acaba reduzindo e injustiçando a dinâmica das conotações e das associações que o trabalho formal propicia ao poeta no momento inventivo do fazer literário.

O intérprete está diante do efeito verbal e estilizado de um processo que é sinuoso e, não raro, obscuro para o seu próprio criador. É preciso que ele respeite esse caráter de mobilidade, incerteza, surpresa, polivalência e, até certo ponto, indeterminação que toda fala implica mesmo quando tudo nela pareça água de rocha e cristal sem jaça.

Há sempre o risco de fabricar hermenêuticas mais herméticas do que o texto-fonte.

Se a obra se apresenta, na riqueza concreta das suas figuras, cruzada por um sistema ideológico ou mítico (ou por ambos), o intérprete cuidará de não apertá-la com as tenazes de um modelo monocausal, cujo uso prático fará regredir as relações móveis entre forma e evento a uma só e hipotética “origem”. Ao contrário, o mediado se esforça para reconstituir e, se possível, reviver em si aquele movimento plural de sentido que faz juz não só às regularidades do poema como às suas fraturas e contradições.

A forma reflete o evento, mas como sugere Mallarmé, prismatizando-o.

 

Perspectiva e tom

Não há grande texto artístico que não tenha sido gerado no interior de uma dialética de lembrança pura e memória social; de fantasia criadora e visão ideológica; de percepção singular das coisas e cadências estilísticas herdadas no trato com pessoas e livros.

Como ignorar essas interações que afinal co-existem em um poema, romance ou drama? E como garantir sempre o uso daquele salutar discernimento pelo qual prestamos atenção às várias forças em presença, mas sem perder de visa aquela que, a rigor, sobredeterminam o texto dando-lhe a perspectiva e o tom afetivo dominante?

Perspectiva e tom são os conceitos mediadores dessa mediação por excelência que é a tarefa do intérprete.

*

Ângelo Luís

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