Poemas de Guilherme de Almeida

CUIDADO! (Guilherme de Almeida)

Ó namorados que passais, sonhando,
quando bóia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!
Desperta os ninhos vosso passo… E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando…
Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!
Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!

(Messidor, 1919.)

*

A DANÇA DAS HORAS (Guilherme de Almeida)

Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz…
São as horas, que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.
Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e, embora irmãs,
não se vêm, não se dão, não se parecem
as doze tecelãs!
E, de mãos dadas, confundidas quase,
no invisível sabá,
elas são silenciosas como a gaze,
ou farfalhante como o tafetá.
Frágeis: têm a estrutura inconsistente
de teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.
E, entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia,
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa, que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.
Sessenta rosas, vivas como brasas,
traz cada uma; e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer…
À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos poucos, se desfaz.
E quando as doze dançarinas, feitas
de plumas, vão recuar,
levam as frontes, claras e perfeitas,
circundadas de espinhos, a sangrar…
Assim, depois que a estranha sarabanda
na sombra se dilui,
penso, vendo o outro bando que ciranda
em torno do que fui,
que há uma alma em cada gesto e em cada passo
das horas que se vão:
pois fica a sombra de seu véu no espaço,
fica o silêncio de seus pés no chão!…

(A dança das horas, 1919.)

*

METEMPSICOSE   (Guilherme de Almeida)

Morrer… Pelos caminhos
ir branco, ir muito frio, ir de roupinha nova,
as mãos em cruz, o olhar de vidro os pés juntinhos:
ir assim para a cova!
Ir e não ver… Bizarro!
E tudo tão luxuoso, e tudo rico, tudo!
Os amigos de preto, as coroas, o carro,
o caixão de veludo…
Bizarro! Que vida, esta!
Ser festejado assim, com tanto rebuliço,
com tanta pompa assim: e o anfitrião da festa
nada a ver de tudo isso!
Depois, a sepultura:
sair de um leito pobre e de colchões macios,
para um de pedra, rico… Ah! mas que cama dura
e que lençóis tão frios!
E desfazer-se aos poucos…
Não ter o que comer e dar comida a tantos
inimigos! Meu Deus, que terra esta de loucos!
De loucos ou de santos?
Ficar assim, agora,
escutando o silêncio e olhando a treva… E, inteira,
completamente só, voltar ao que era outrora:
ser poeira de outra poeira!
Mas, na terra selvagem,
achar uma semente: adubá-la, um minuto,
e ser raiz, e ser arbusto, e ser folhagem,
e ser flor, e ser fruto!
Flor que um Sol Poente banha
e que vai perfumar, enfeitar com ternura
– ó flor de morte, flor paradoxal e estranha! –
a própria sepultura!
Fruto que vai dar vida
aos pássaros do céu! Galho que vai dar sombra
aos homens do caminho! Ou erva apetecida
de apetecida alfombra!
Ah! morrer na certeza
de, assim multiplicado, invisível e mudo,
viver eternamente em toda natureza
e na vida de tudo!

*

O CÂNTICO DOS CÂNTICOS (Guilherme de Almeida)

Ego dilecto meo, et dilectus
meus mihi, qui pascitur inter
lilia.
(Cânticos, VI, 2).
Este é o meu Cântico dos Cânticos,
a exaltação da minha vida,
toda a expressão do meu amor.
Meus pobres olhos são românticos
porque me viram refletida
nos olhos bons do meu Senhor.
O Bem Amado é longo e pálido,
pálido e longo como um lírio,
e suave, e bom como um perdão.
Ao seu contato amante e cálido,
meu corpo todo é como um círio
piedoso aceso em sua mão.
A sua mão é meu oráculo:
tomo-lhe os dedos e desfolho-os
como se fosse um malmequer.
O seu olhar é um tabernáculo
onde eu adoro estes meus olhos,
estes meus olhos de mulher.
Em cada nervo, em cada músculo
ele tem sombras de sol posto
que se prolongam sobre mim:
por isso há sempre este crepúsculo
agonizando no meu rosto
feito de cinza e de marfim.
É como o sol a sua túnica.
Com longos fios de cabelo
da minha trança, que cortei,
fiz-lhe esse manto esplêndido, única
e simplesmente para vê-lo
vestido de ouro, como um rei.
Sempre que estendo a mão fanática,
ou que debruço o olhar tristonho
sobre o meu lago espiritual,
é como uma alva flor aquática,
na superfície do meu sonho,
sua silhueta de cristal.
Como volutas de um turíbulo,
voaram meus braços para o Eleito,
desde a primeira vez que o vi.
Quando transpus o seu vestíbulo,
meu coração fugiu do peito:
foi nos meus joelhos que o senti!

(Livro de horas de Soror Dolorosa, 1920.)

*

Natureza-Morta      (Guilherme de Almeida)

Na sala fechada ao sol seco do meio-dia
sobre a ingenuidade da faiança portuguesa
os frutos cheiram violentamente e a toalha é fria
e alva na mesa.

Há um gosto áspero de ananases e um brilho fosco
de uvaias flácidas
e um aroma adstringente de cajus, de pálidas
carambolas de âmbar desbotado e um estalo oco
de jaboticabas de polpa esticada e um fogo
bravo de tangerinas.

E sobre esse jogo
de cores, gostos e perfumes a sala toma
a transparência abafada de uma redoma.

Publicado no livro Meu (1925).

*

Os Andaimes    (Guilherme de Almeida)

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
Publicado no livro Poesia Vária (1925). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.

*

Velocidade         (Guilherme de Almeida)

Não se lembram do Gigante das Botas de Sete Léguas?
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias…
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás…

Vai como um pária…

E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas…
imprevistas…

Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas…
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar…

Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III – Sete Poemas.

*

Cinema (Guilherme de Almeida)

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons…

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz…

Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II – Alma.

*

Indiferença (Guilherme de Almeida)

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

*

O Idílio Suave      (Guilherme de Almeida)

Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens… E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão…
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!

*

Esta vida (Guilherme de Almeida)

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.
Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida
Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.
Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!
Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

*

Cubismo (Guilherme de Almeida)

Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez…

No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem… e vai…
e quase cai…

Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer…

Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se…
— Todo Arlequim
é mesmo assim…

Publicado no livro Encantamento (1925).

*

Humorismo (Guilherme de Almeida)

Sossego macio da tarde.
Um sol cansado
passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.

E o sol vai caminhando sobre os montes tranqüilos
vai cochilando. E de repente
tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.

Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).

*

Nós I (Guilherme de Almeida)

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
– “Que é feito dela?” – indagarão – coitados!
E os amigos dirão: – “Que é feito dela?”

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;
irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

*

Nós II (Guilherme de Almeida)

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário
ouvindo o canto que daqui se evola
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto.

*

Nós III (Guilherme de Almeida)

Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa,

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

– É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.

*

Nós IV (Guilherme de Almeida)

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
– “Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!”

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos…

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.

*

Flor do asfalto     (Guilherme de Almeida)

Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda…

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria…
Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste…
Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

*

Harmonia Velha (Guilherme de Almeida)

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem…

Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente –
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo…
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar…

*

O ECO      (Guilherme de Almeida)

“Perguntei à minha vida:
Como achar a apetecida
felicidade absoluta?
E um eco me disse:
– Luta!

Lutei. – Como hei de a esta pena
dar cadência serena
que suaviza, embala e encanta?
O eco, então, me disse:
-Canta!

Cantei. – Mas, como, num verso,
resumir todo o universo
que em mim vibra, esplende e clama?
Então o eco me disse:
– Ama

Amei. – Como achar agora
a alma simples que eu pus fora
pelo prazer de buscá-la?
O eco, então, me disse:
– Cala!

Calei-me. E ele, então, calou-se.
Nunca a vida foi tão doce…
Tudo é mais lindo a meu lado:
Mais lindo, porque calado.”


*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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8 comentários em “Poemas de Guilherme de Almeida

  1. procuro poema que escreveu para o quarto centenario de são paulo(1954)
    “são paulo de treze listas,são treze lanças de guerra fincadas em solo paulista”
    foi gravado em disco em 1954 e fez parte das celebrações do aniversário da cidade.grandioso.quem souber,faça contato.obrigado.
    marco antonio

    1. Nossa bandeira
      Guilherme de Almeida

      Bandeira da minha terra,
      Bandeira das treze listas:
      São treze lanças de guerra
      Cercando o chão dos paulistas!

      Prece alternada, responso
      Entre a cor branca e a cor preta:
      Velas de Martim Afonso,
      Sotaina do Padre Anchieta!

      Bandeira de Bandeirantes,
      Branca e rota de tal sorte,
      Que entre os rasgões tremulantes,
      Mostrou as sombras da morte.

      Riscos negros sobre a prata:
      São como o rastro sombrio,
      Que na água deixara a chata
      Das Monções subido o rio.

      Página branca-pautada
      Por Deus numa hora suprema,
      Para que, um dia, uma espada
      Sobre ela escrevesse um poema:

      Poema do nosso orgulho
      (Eu vibro quando me lembro)
      Que vai de nove de julho
      A vinte e oito de setembro!

      Mapa da pátria guerreira
      Traçado pela vitória:
      Cada lista é uma trincheira;
      Cada trincheira é uma glória!

      Tiras retas, firmes: quando
      O inimigo surge à frente,
      São barras de aço guardando
      Nossa terra e nossa gente.

      São os dois rápidos brilhos
      Do trem de ferro que passa:
      Faixa negra dos seus trilhos
      Faixa branca da fumaça.

      Fuligem das oficinas;
      Cal que das cidades empoa;
      Fumo negro das usinas
      Estirado na garoa!

      Linhas que avançam; há nelas,
      Correndo num mesmo fito,
      O impulso das paralelas
      Que procuram o infinito.

      Desfile de operários;
      É o cafezal alinhado;
      São filas de voluntários;
      São sulcos do nosso arado!

      Bandeira que é o nosso espelho!
      Bandeira que é a nossa pista!
      Que traz, no topo vermelho,
      O Coração do Paulista!

  2. Conheci o poema Velocidade, como poema visual, logo com uma forma diferente daquela que aparece aqui. Que forma tem, realmente?

    1. O poema Velocidade em forma visual é um poema concreto de Ronaldo Azeredo. Velocidade, de Guilherme de Almeida é um outro poema. São dois poemas distintos, apesar de terem o mesmo título.

  3. Li certa vez uns versos de Guilherme de Almeida: “Fugiram ao bodum das senzalas e, zonzos e fulos, meteram-se em fundos mocambos, escuros quilombos”. Todavia não acho o poema completo. Poderia me ajudar, por favor?

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