Indômitus

Indômitus      (Cassiano Ricardo)

a Murilo Mendes

 

O mar é uma esmeralda suja.
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma.
(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)
As espadas dos peixes aguerridos
(os espadartes) trançam cintilações de prata
em campo blau, como num escudo.
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
não é tão fácil, senão a mais oscilante das
artes.
Não consta da rosa-dos-ventos…
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos de malme-quer
até Dumquerque.
Indômitus está dançando agora entre duas espécies de
estrêlas.
A hora não é pra considerações em tôrno do
que possa acontecer.
É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue-frio.
A hora é do vento
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).
Indômitus então navega em plena rosa cega.
Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.
O comandante está dizendo à sua maruja que não há
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago.
Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão
ao navio.

*

Ângelo Luís

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