Publicado em Anna Akhmátova

Anna Akhmátova

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Aprendi a viver com simplicidade

( Anna – Akhmátova – Andreevna Gorenko / Tradução de Lauro Machado Coelho)

 

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer minhas orações,

a passear sozinha até a noite,

até ter esgotado esta angústia inútil.

 

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

e declina o alaranjado cacho da sorveira,

componho versos bem alegres

sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão

o gato peludo, que ronrona docemente,

e um fogo resplandecente brilha

no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido

pelo grito da cegonha pousando no telhado.

Se vieres bater à minha porta,

é bem possível que eu sequer te ouça.

 

*

Ciumento, Terno
( Anna – Akhmátova – Andreevna Gorenko / Tradução: Jorge de Sena)

Ciumento, terno, inquieto,

como um sol divino amava.

Matou-se o pássaro branco,

porque ao passado cantava.

 

Entrava ao poente em meu quarto:

“Ama-me e ri, escreve versos!”

Enterrei o alegre pássaro

além da fonte, ao pé do tronco antigo.

 

Prometi-lhe não chorar.

Tenho em pedra o coração.

E é como se em toda a parte

ouvisse a doce canção.

*

ATRAVÉS DOS ESPELHOS
( Anna – Akhmátova – Andreevna Gorenko / Tradução: Lauro Machado Coelho)


(dois poetas e a musa)

“Esta beldade é muito jovem
mas não é deste século.
Não ficamos sozinhos pois – a terceira –
ela nunca nos abandona.
Puxas para ela uma cadeira
e eu, generosamente, divido com ela minhas flores…
O que estamos fazendo – nem nós mesmos sabemos
mas, a cada momento, mais isso nos assusta…
Como quem saiu da prisão,
sabemos algo um do outro,
algo terrível. Estamos num círculo infernal.
Mas talvez isto não sejamos nós.”

*

LENDO “HAMLET”
( Anna – Akhmátova – Andreevna Gorenko / Tradução: Lauro Machado Coelho)

 

I

No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste; “Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota…”
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.

II

E como por engano
eu disse: “Tu…”
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave de meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando…
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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