nova linguagem, nova poesia

nova linguagem, nova poesia

Luis Ângelo Pinto e Décio Pignatari

semiótica

Para o que pretendemos dizer, torna-se necessária, antes de mais nada, a exposição sucinta de alguns conceitos fundamentais da semiótica, ou teoria dos signos, fundada pelo filósofo e matemático americano Charles Sanders Peirce e desenvolvida posteriormente por Charles W. Morris.
Chamamos de SIGNO toda coisa que substitui outra para o desencadeamento de um mesmo conjunto de reações.
O signo, em relação ao referente, ou objeto a que se refere, pode ser classificado em:

ÍNDEX, quando está diretamente ligado ao referente. Exemplo: chão molhado, indício de que choveu; pegadas, indício da passagem de um animal ou pessoa;
ÍCONE, quando possui alguma analogia com o referente. Exemplo: uma fotografia, um diagrama, um esquema, um pictograma etc.;
SÍMBOLO, quando a relação signo-referente é arbitrária, convencional. Exemplo: a palavra “mesa” em relação ao objeto designado.

É possível ainda a existência de signos mistos, isto é, em parte analógicos, em parte arbitrários.
Um processo sígnico pode ser estudado em três níveis:

SINTÁTICO, quando se refere às relações dos signos entre si;
SEMNTICO, quando envolve as relações entre signo e referente;
PRAGMÁTICO, nível em que se envolvem as relações com o intérprete, ou seja, com aquele que usa os signos.

linguagem

Entendemos por linguagem qualquer conjunto de signos e o modo de usá-los, isto é, o modo de relacioná-los entre si (sintaxe) e com referentes (semântica) por algum intérprete (pragmática).
Nessa definição, enquadram-se não só todos os idiomas como também qualquer processo de sinalização de tráfego (rodoviário, marítimo, aéreo, espacial); linguagens de esquemas e diagramas (diagramas de bloco, diagrama de Venn etc.); linguagens de computadores; linguagem matemática e de lógica simbólica; linguagens audiovisuais, como o cinema etc.

Qualquer objeto deve ser projetado e construído de acordo com as necessidades ou funções a que vai atender ou servir. Esse princípio básico da indústria moderna não se cinge a objetos tradicionalmente considerados como tais; pode estender-se a outros “objetos”, como as linguagens. É nesse sentido que o poeta é um designer, ou seja, um projetista da linguagem.
Realmente, a tendência das linguagens em geral é se transformarem ou se construírem de acordo com certos objetivos. Nos idiomas, as palavras utilizadas com mais freqüência são as mais curtas (problemas de economia de tempo e de esforço); na linguagem taquigráfica, cujo objetivo é a rapidez da transcrição fonética, os signos são de desenho conveniente para traçado rápido; na linguagem de trânsito, usa-se um conjunto de signos visíveis e audíveis a distância e rapidamente; na lógica simbólica, o conjunto de signos e as regras de utilização dos mesmos são estabelecidos de modo a possibilitar, entre outras coisas, maior clareza e precisão.

a caminho de novas linguagens

Baseados no conceito de linguagem exposto anteriormente, propomos a criação de outra linguagem ou linguagens.

O problema de novos conteúdos está ligado diretamente ao problema de criação de formas lingüísticas, de linguagens. Toda linguagem, por mais ampla que seja, é limitada. Possui um conjunto limitado de signos e relações sintáticas. Portanto, quando pensamos ou nos comunicamos por meio de certa linguagem, não conseguimos referir-nos a coisa alguma nem estabelecer qualquer relação a não ser aquelas subordinadas à forma da linguagem em questão.
Propomos, portanto, a criação de linguagens projetadas e construídas para cada situação e de acordo com cada necessidade. Isso significa: 1) projeto e construção de conjuntos de signos (visuais, auditivos etc.) e 2) projeto e construção de regras sintáticas aplicáveis aos novos conjuntos de signos. Notar ainda que esses dois itens não são autônomos, mas, ao contrário, estão em íntima interdependência: a sintaxe deve derivar de, ou estar relacionada com, a própria forma dos signos.
As letras, palavras etc. são signos adequados à sintaxe de uma linguagem escrita linear. Esses signos – letras, palavras etc. – podem, em muitos casos, ser usados em uma linguagem não-linear; porém, as limitações são maiores do que as possibilidades.
Na escrita tradicional, a sintaxe é a mesma da linguagem oral. A poesia concreta, segundo o plano piloto de 1958, “começa por tomar conhecimento do espaço gráfico”. Propõe e consegue realmente a criação de uma sintaxe: novas estruturas lingüísticas no plano, ou seja, liberta-se, na medida do possível, da sintaxe oral, meramente linear. Porém, essa linguagem plana ainda se utiliza de signos provenientes da linguagem oral, cuja forma é própria para um processo de escrita linear. Portanto, isso limita as possibilidades dessa linguagem. É possível, assim, justaposição, desmembramento, uso de tamanhos e formas variáveis de palavras, e, por exemplo, um simultaneísmo baseado na justaposição, mas as possibilidades de superposição (poema “greve”, de Augusto de Campos) ou intraposição (certas palavras-montagens) já são bem mais reduzidas. Em alguns casos, na poesia concreta até o presente, foi possível a criação de textos em que a sintaxe deriva do próprio desenho dos signos usados. É o caso das últimas fases do poema “organismo” e, especialmente, do poema “LIFE”, ambos de Décio Pignatari. Esses casos só foram possíveis graças a certas virtualidades do desenho dos próprios signos.
Falando de novas linguagens, não podemos deixar de citar, ainda, como precursor, o conjunto de textos SOLIDA (1962), de Wlademir Dias Pino.
Daí a idéia de uma linguagem em que a forma dos signos seja projetada de modo a condicionar a sintaxe, dando margem a novas possibilidades de comunicação.
Para isso, é necessário que o conjunto de signos (e os próprios signos) seja dinâmico, isto é, maleável, podendo se transformar de acordo com as necessidades de cada texto.
Quanto aos textos visuais, as ligações com o ideograma chinês são evidentes: sintaxe analógica, signos gráficos que representam diretamente o objeto independentemente do estágio fonético – linguagem não-verbal. Numa nova linguagem, porém, o ideograma deve ser projetado e construído racionalmente. Isso não quer dizer, contudo, que uma nova linguagem precise necessariamente ser visual, ou só visual. Pode, dependendo da situação, ser auditiva, audiovisual etc.
É certo que, inicialmente, qualquer linguagem nova estará ligada, em certo grau, a uma ou mais linguagens já existentes. Com seu desenvolvimento, porém, gradativamente se tornará autônoma. Essa autonomia, essa unicidade, não só de uma linguagem em relação às outras, mas de cada obra de arte, é, aliás, condição sine qua non para que uma obra artística possa ser considerada como tal. Em outras palavras: a obra de arte é irredutível.
Uma linguagem vale pelo que tem de intraduzível, de intransponível, de irredutível a outras linguagens. Um texto também tem valor por tudo aquilo que há nele de irredutível a outros textos em quaisquer linguagens. Não tem sentido tentar exprimir uma realidade de determinada natureza em termos alheios a essa realidade. Tentar, por exemplo, traduzir em linguagem linear um texto composto num plano e usando uma sintaxe plana. Por isso mesmo, na criação de uma linguagem, não se visa simplesmente a outra representação de realidades ou conteúdos preexistentes em outras linguagens, mas a criação de outras realidades, outras formas-conteúdo.
Não temos, contudo, a pretensão de afirmar que estejam esgotados os recursos criativos em qualquer uma das linguagens já existentes. Queremos, isso sim, mostrar a possibilidade de criação de conjuntos de signos, sintaxes. Em suma: novas linguagens projetadas e construídas de acordo com cada situação. Agora, mais do que nunca, como já foi dito no “Plano Piloto para Poesia Concreta”:

“Il faut que notre intelligence s’habitue à comprendre synthético-idéographiquement au lieu de analytico-discursivement”APOLLINAIRE

Para finalizar: parece-nos claro que mesmo o que há de mais radical nessa nova poesia não se desvincula – ao contrário – dos princípios básicos da poesia concreta. Continuamos, portanto, a chamar de concreta essa poesia. E dela damos, aqui, alguns exemplos.
Publicado originalmente no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1964, com os poemas “agora! talvez nunca!” de D. Pignatari, e “terra homem”, de Luis Ângelo Pinto; republicado no “Suplemento Literário” de >O Estado de S. Paulo,em 26 de setembro de 1964, mais os poemas “pelé”, de Pignatari, “labor torpor” de Ronaldo Azeredo, e “sim não”, de Luis Ângelo; e na revista >Invenção, número 4 (dezembro de 1964), com o acréscimo dos poemas “macho fêmea” e “mineral e/ou vegetal”, de Luis Ângelo, a versão para o inglês e as respectivas chaves léxicas para o mesmo idioma.

Fonte: http://www.poesiaconcreta.com.br

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Ângelo Luís e Francisco Settineri

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