Poesia de Francisco Settineri – III

Taciturno

Olha. Mas olha intenso. E bem de frente.
Pois como se quisesses um devoto
Zelo atroz furioso a celebrar remoto
A alma toda, olha no presente…

Que não hesite trêmula e lamente
A mão em tola nostalgia e ex-voto
Daquilo que surgiu, tão grave e ignoto
Num leito plurialvo e penitente.

Fere o trovão a noite tenebrosa!
Que o cio feroz e o som retire o leme
Da barca que arriscou-se ao mar briosa

Na voz do vento o verso austero e estreme…
Que uive nas canções mais escabrosas
Roldão que nas galáxias treme e geme!

*

Crepúsculo

 

Um macabro toque roça a mão que mansa
Cava a nua folha e planta o texto infesto,
Osso que retorce e crava ao chão um resto
Mausoléu no qual apenas pó descansa!

E na paz de outrora em que a memória dança
É que eu lanço agora e trôpego detesto
Cancro embalsamado em morte, hediondo incesto
Nesta que se veste em negro manto e avança…

E anda solene e agarra a vida e trança
Por sobre os seus véus, em hálito funesto,
Nós de asfixia e nuvens sem protesto
Quando expira enfim o longo ai que cansa.

Mas a terra guarda como que em fiança
O que já calou e não é mais molesto
E que é incapaz de mover mais um gesto
A não ser dar pasto aos vermes, como usança!

*

Costureira

É sempre no meu dedo que se crava
Na falha do dedal em seu feitiço
A agulha que não quer mais ser escrava
E o sangue a rebrotar virou cediço…

Mas quando enfim o adorno se bordava
E as cores já surgiam em seu viço
Alçava em seu vigor pétala flava
Domínio enternecido a seu serviço…

É assim que da palavra ora não peço
Que poupe a tenra carne do seu aço
Mas cada pano bom que agora teço

Obrigue-se a bailar nesse compasso:
Se nada em meu abraço é adereço,
Fulgura a letra e o tom sem embaraço!

*

Poema de Aniversário

Eu sabia que a criança quando cresce
Guarda em si um pouco o resto de um sorriso
Mas pergunta por que então é sem aviso
Que o que tinha, que era flor, então fenece…

É no ocaso que essa têmpera padece,
Pavilhão de uma memória que eu aliso
Nesse verso imaterial em que deslizo
Que a centelha do poema agora tece!

Minhas mãos também remaram por um Norte
Que pairava deslumbrado sobre mim,
Mas o barco estava entregue à própria sorte

E a viagem estava longe do seu fim:
Pois de haver algo maior que a própria morte
Não sabia ser capaz de amar assim…

*

Retrato

Do eco do passado que arrefece
Restou como pingente um breve tema
Talvez não seja mais do que um poema
Bordada na retina a rica messe…

Perdida na lembrança, ao que parece
Marcada em minha voz na vez extrema
Talvez não seja mais do que um poema
No mundo tão tardio que já anoitece…

Se acaso eu tropeçasse sem aviso
Na sombra da ilusão da qual comparto
Um resto que deixaras no meu piso

A sombra de uma dor de que me farto,
Talvez eu vislumbrasse esse sorriso
Que arromba o coração e invade o quarto!

*

Francisco Settineri.

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