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FARSÁLIA Livro I [1-227]

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FARSÁLIA 

de MARCO ANEU LUCANO (tradução Filinto Elísio)

Livro I [1-227]
A R G U M E N T O

Da guerra as causas diz; como impelido
Da acelerada cólera, atravessa
César do Rubicon a veia, e investe
Com sobrecenho a Rímini vizinha,
E como acolhe os da assombrada Roma,

Expulsados tribunos: para guerra
Os seus anima; o fiel socorro chama
Das coortes. Jaz Roma em frio susto.
Medroso vai Pompeu, medrosa a Cúria.
Prodígios surgem; dão resposta os vates.

*

Guerras mais que civis, no Emátio campo,
O jus dado à maldade canto, e o povo
Poderoso, que contra entranhas suas
Houve empregado a vingadora destra.
Co’as forças juntas do abalado mundo,

Hostes parentas, roto o nó do império,
Para o total desastre, combateram:
Pendões contra pendões, águias contra águias,
Dardo no encontro hostil dardo ameaça.
Que furor, cidadãos, que solto ferro

Libra a odiadas nações o sangue Lácio;
Quando arrancar à ufana Babilônia
Os Ausônios troféus, melhor cumpria?
Quando os manes de Crasso inultos erram,
Guerras travais, indignas de triunfo!

Co’esse, que as vossas mãos, sangue, verteram
Que assaz terra e assaz mar ganhado fora,
Onde o sol surge e acolhe a noite os astros!
Onde a pino flameja e ferve o dia,
Ou ringe a neve e o Cítio mar algema,

C’os frios gelos, que o verão não solta!
Já o bárbaro Aráxes, já os Seres
Curvariam c’o jugo, e quanto povo
Vê o Nilo de incógnita nascente:
Então, Roma, quando hajas sotoposto

Inteira a redondeza a teu império,
Já que a nefanda guerra anelas tanto,
Volta armas contra ti, e hás inimigos.
Agora, que, nas Ítalas cidades,
Destroçados os tetos, as paredes

Pendem, e as derribadas cantarias
Das muralhas, desmanteladas jazem;
Guarda as casas não têm, raro vagueia
O morador, na de antes populosa,
Hoje crespa de abrolhos, não lavrada

Hespéria, há muitos anos, e pedindo
A terra as mãos está, que lhe negamos.
Não foi Pirro feroz, não foi Haníbal
Quem ‘stragos tais nos fez: que a ninguém coube
Dar-nos mau fim, com ferro, a todos: – jazem,

Por mão civil, profundas as feridas.
Mas se outra via os Fados não tomaram
Para a vinda de Nero; eternos reinos
Só a grão preço aos numes se aparelham:
Nem ao Troante seu bem serve o Olimpo,

Se aos Terrígenas crus não dá combate.
Cessa, oh numes, o agravo nosso; os crimes,
As maldades, com prêmio tal, contentam.
Encha Farsália as lúgubres campinas,
Cevem-se em sangue os manes de Cartago,

Veja Munda o nosso último destroço:
Co’as fadigas de Módena, co’a fome
De Perúsia, estes fados, César, medrem,
C’os baixéis, que submerge asp’ra Leucate,
E no Etna ardente, co’a servil batalha:

Que muito às civis armas deve Roma,
Se tu lhe és prêmio e fim. Quando tardio
Corrido o giro teu, aos astros subas,
Pospondo a terra aos céus, te acolha o Olimpo,
Com gosto em seu alcáçar, ou já prezes

O cetro menear, ou nas carroças
Flamígeras de Febo ir assentado
Com vaga tocha alumiando o mundo,
Do permutado sol desassustado:
Númen não há que o sólio te não ceda;

E a qual deus queiras ser, ou do orbe o mando
Ponhas, Natura o franco jus te entrega.
Mas não na Arctoa plaga assento escolhas,
Nem onde o ardor afunda a meta austrina,
D’onde, astro oblíquo, a tua Roma influas.

Se uma facha do imenso etéreo oprimes,
Sentir-se-á o axe do pendor: no meio
Do empíreo o peso libra a um pólo e outro;
Sereno o ar seja, nesse espaço, e limpo:
Que entre César e nós não vaguem nuvens.

Então a humana prole as armas pondo,
Os seus úteis consulte e mútua se ame.
Do belígero Jano as férreas portas,
A paz enviada ao mundo inteiro as feche.
Tu és meu númen já; nem, se em meu seio

Te acolho eu vate, invocar trato
Esse deus, que os arcanos move em Cirra,
Nem de Nisa arredar Baco. Assaz forças
Para os romanos versos dar-me podes.
Leva-me a mente a desferir as causas

de tão grandes sucessos. – Cena imensa
se me abre. Quem o povo insano, às armas
impeliu? Quem a paz lançou do mundo?
Cortou Fado invejoso o fio às Ditas:
Negado lhe é durar. – Bem, que é supremo!

Quanto o peso é maior mais grave é a queda,
Nem já se tinha Roma! Assim, deste orbe
O enlace desatado, essa hora extrema
Rebanhando ante si tropel de séculos,
Terá de ir-se engolfar no antigo caos.

Confusos balroando astros com astros
O pego acolherá do céu luzeiros;
Na terra, que há de abrir seu amplo seio,
Hão de as ondas lutar. A Apolo oposta
De dous corcéis reger irada a Lua

Por essa obliqua zona, em carro de ébano,
Quererá, como o irmão raiar o dia.
Do orbe estroncado a máquina discorde
Todo o pacto rompeu. Sobre si mesmas
As grandes moles caem. – Tais balizas

De aumento os numes às venturas cravam:
Nem Fortuna outorgou à gente alguma
Contra o povo possante em mar e terra
O impulso desferir da inveja sua.
Tu, do mal todo a causa foste, oh Roma,

De três comum domínio, liga infausta,
Que o reinado negava a qualquer outro;
Funesto acordo! – Cegos de cúbica,
(Quão sobeja!) que val mesclar as forças,
ter o mundo suspenso e subjugado!

Enquanto o sol, volvendo longas lidas,
Seguir, por signos doze, e ao dia a noite
Suster a terra o mar, a terra os ares,
Nos sócios do reinar, fé não se espere;
Que partilhas o mando não consente.
Nem anais das nações abrir releva,
Nem ao longe indagar fatais exemplos:
Nossos primevos muros se orvalharam
Com sangue fraternal; nem foram preço
De furor tanto, então, terras, nem mares:

Tênue asilo empenhou seus dous senhores.
Breve remanso deu discorde aliança;
Nem foi a paz dos capitães arbítrio;
Que só Crasso a enlaçava, posto em meio,
E a guerra a não surgir. – Qual corta as ondas

Istmo estreito e que um mar de outro separa
Nem consente mesclar águas com águas.
Se a terra atrás se encolhe, o Egeu e o Jônio
Se romperão co’as vagas. – Tal, apenas
Com miserando estrago as armas cruas

De ambos os capitães Crasso atalhando
Manchou c’o Ítalo sangue Assírias Carras:
Desatou logo o Pártico destroço
Os furores Romanos. – Mais vencestes
Do que, Arsácidas, credes. Intestinas

Guerras dais, nessas hostes, aos vencidos.
Talhou a espada os reinos: e a Fortuna
Do povo poderoso que imperava
Em terra e mar, e em toda a redondeza,
Dous não pôde conter: que a seva destra

Das Parcas retraiu, levou aos manes
Fachos nupciais, com diro agouro acesos,
Penhor de unido sangue. – Que se os fados
Te dessem ver do sol mais largos giros,
Tu só reter d’aquém teu pai puderas,

E d’além a teu ‘sposo enfurecido:
E armadas mãos juntar (depondo lanças),
Qual juntaram, permeiadas, as Sabinas
Os genros com os sogros. Tu, morrendo,
Soltou-se a aliança, e aos capitães foi dado

(Êmulo esforço os punge!) mover guerra.
Tu, Magno, temes, que os triunfos novos
Teus antigos eclipsem; que o pirático
Louro, aos vencidos Galos se submeta.
Já te alça o fio e trato das façanhas,

E a ventura insofrida em grau segundo.
Que César não consente a alguém primeiro,
Nem Pompeu ter igual. – Colher não cabe
Qual dos dous com mais jus vestiu as armas.
Em potente juiz cada um se escora;

A vencedora causa aprouve aos numes;
A vencida a Catão. – Nem correm ambos
Parelhas, na refrega; que à velhice
Vergam já d’um os anos; no remanso
Da toga, longo tempo, em paz, trajada,

Teor de general desaprendera.
Fama anelando, pródigo c’o vulgo,
Só, na aura popular, na voz, que o aplaude
No teatro seu, se embelezava todo:
Recostado nos seus brasões antigos

Remoçar-se olvidava em vigor novo;
Só do grão nome seu sombras conserva.
Qual sublime carvalho em fértil campo
Blasona o popular despojo antigo
E os sacros dons dos Capitães, no peso,

Não em tenaz raiz o tronco alteia;
Os ramos nus devolve pelos ares;
Não co’as folhas, c’o tronco inda faz sombra:
Bem que aos primeiros sopros do Euro vergue
E queda ameace, e em roda ufanos subam

Ferrenhos bosques, cultos só os tem ele.
Não tinha César, não tal nome e fama
De general, mas tinha inquieto, ativo
Valor, que o ser vencido em campo o anoja;
Onde quer que ambição, vingança o chame
A travar guerra, indômito e ferrenho,

Não poupa a lança, em sangue vai cevá-la:
C’os seus sucessos cerra, insta c’os mimos
Da Fortuna, impelindo quanto lhe obsta
A atingir ao mais alto; e folga abrir-se
Rota, rompendo estragos. – Tal das nuvens,

Com rouco estalo de ar, fracasso do orbe
A violências de Éolo, rompe o raio
Travessa o albor do dia, aterra os povos
Descorados, à face, os olhos lhes deslumbra
Com torti-vaga luz, e solta fúrias

Contra os seus próprios templos. Nada o estorva;
Ou volte, ou caia, as chamas ele ajunta
Derramadas, quebranta, arruína, arrasa.
A ambos os generais tais causas movem:
Mas são da guerra as públicas sementes

As que sempre afundiram nações grandes.
Já avassalado o mundo, apenas trouxe
Desmedidas riquezas a Fortuna,
Cederam os usos bons aos usos prósperos,

E inimigos despojos, e rapinas
Luxo inculcaram, desmediram regras
O ouro e edifícios, teve a gula
As mesas dos avós em menoscabo;
De galas, para noiva inda garridas,

Homens se apoderaram. Fogem todos
Da pobreza, em heróis já tão fecunda.
De todo o orbe acareiam quanto há sido
De possantes nações fatal destroço:
Remotos marcos, vastas jeiras cingem;

E as que outrora lavrou com relha dura
Terras Camilo, ou Cúrio abriu co’antigo
Enxadão, dono obscuro encrava e estende.
Não, com tranqüila paz, contente fora
Tal povo, e com manter com armas quedas

A liberdade sua. De lá vinham
Aceleradas iras; ter por baixa
Maldade a que pobreza a alguns inculca;
E por brasão o que ia à força e ferro;
E a poder mais que a pátria: era a violência

A vara do direito; eram forçados
Plebiscitos e leis, como o era tudo:
Foros turbavam cônsules, tribunos;
Em almoeda as fasces; que as vendia
A quem mais dava o povo; ao venal Campo,

Combate anual trazendo mortal âmbito
A Roma. Sai de lá voraz usura,
Sôfregos juros, combalido crédito,
E vir, da guerra, grão proveito a muitos.
Já na derrota os Alpes franqueara

Gelados César, que no peito aloja
Abalos grandes e o guerrear futuro:
Do escasso Rubicon já as abas trilha.
Eis da angustiada Pátria o vulto ingente
Tristíssima no gesto, desparzida,

Desfeito o adorno das madeixas brancas
Na torrígera fronte, nus os braços,
Radiosa, no obscuro da alta noite,
Se of’rece a César, rompe entre gemidos:
“Onde é que encaminhais? Levais aonde,

Varões, meus estandartes? Té qui parem;
Se vindes cidadãos, se réus não vindes”.
Súbito horror embebe a César o ânimo,
Os cabelos, na fronte se lhe eriçam,
Lânguido o passo às ribas se lhe prende.

Eis se recobra: “Oh Jove, que adoraram,
Em Alba, meus avós; tu que hoje velas
Na rainha do orbe, do alto Capitólio,
E vós troianos deuses tutelares,
Que à Ausônia Enéias trouxe; tu, oh Rômulo,

Que ao Olimpo alçado o nosso culto houveste,
Vesta, a quem na ara é vivo sacro fogo,
Roma, oh tu, que meu númen foste sempre,
Prospera o intento meu. Não venho armado
De furial facho. Terra e mar vencidos,

Ama-o tu, inda é teu: é teu soldado;
E em todo o orbe o será. – Só tem por crime,
Que inimigo de Roma a César chamem”.
Não difere: co’as tropas rompe o rio.
Leão, que da ardente Líbia em mudos ermos

Avista o caçador, pára e duvida:
Já se anima, recolhe o furor todo,
Ondadas jubas treme, açouta as ancas
Co’a mortífera cauda, ruge irado
Na profunda garganta; e, ou leve o mouro

Lhe arroje o dardo, ou lhe o zarguncho entranhe,
Golpes transcura, e aos gumes se arremessa.
Tênue ao nascer, desliza tênues ondas
Na estiva, o Rubicon, ardente quadra.
Serpeia em Galo vale, e a Ausônia extrema;

Cobra forças no inverno, três chuvosos
Meses o engrossam, fundem neve os Alpes,
E o sopro do Austro emborca-lhe torrentes.
Para embarrar-lhe o undoso peso, os équites
Lá se impelem, lá travam dique oblíquos:

Suspenso é o curso impetuoso; eis cedem,
E obedientes dão caminho às ondas.
Já César cruza o rio, e poja contra;
Trilha com pé revel vedada a Itália.

“Lá deixo a paz, e as leis que os meus adversos
Hão violado. Oh Fortuna, a ti me entrego:
Seja-me a guerra juiz, árbitro a Sorte”.
*

Filinto Elísio, tradutor de Lucano: estudo introdutório, edição crítica e notas de uma versão da Farsália (I 1-227) http://www.letras.ufmg.br/nuntius/data1/arquivos/001.06-Brunno69-86.pdf

trecho de Farsália: http://issuu.com/editoraunicamp/docs/farsalia_contos_cantos_i_a_v

A crise do maravilhoso na epopeia latina: http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas01/05_Martins.pdf

Lucano em Latim: http://www.thelatinlibrary.com/lucan.html

*

Ângelo Luís

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