Décio Pignatari, sobre a ignorância

Décio Pignatari, sobre a ignorância:

a) Ignorância é uma carência repertorial de conhecimento. As estatísticas são sempre interessantes para quem souber ler através dos números. Exemplos: Se 51% dos brasileiros não concluem o nível médio, temos um cenário catastrófico à frente, quanto ao desenvolvimento do país. Mas se imaginarmos um paralelo das Tordesilhas que passe por Belo Horizonte, a situação melhora daí para o sul, o que representa apenas um quarto, aproximadamente, do que chamamos de Brasil. Dada a geléia geral da nossa ignorância e da nossa demagogia política, esta é a parte responsável pela elite pensante e, não por coincidência, a parte economicamente mais rica do país. Passemos ao futebol. Um espanto: alto nível repertorial, técnico e inventivo, em todos os quadrantes, com projeção internacional incontestável. Em termos chomskyanos de competência e desempenho, se passarmos para o nível do ensino superior, o cenário é desolador: as universidades federais, tão importantes como projeto e promessa vem se revelando como um buraco negro do burocratismo educacional, ao sabor de interesses políticos e politiqueiros, para não falar econômicos. Mas isso nos devidos termos. Cumpre dividir o sistema com novo paralelo: acima, as biomédicas e exatas; abaixo, as humanas; no meio-termo cinzento, sociologia, antropologia, psicologia e arquitetura. Dessa linha para baixo, não se consegue estabelecer critérios e padrões para níveis de excelência: e esta é a preocupação final e principal, em meu pensamento pedagógico. Dessa linha para cima, temos resultados satisfatórios e até excelentes, tanto na área pública como na particular. Destaquem-se medicina, engenharia, biologia e economia. á parte, os nichos de excelência da área militar, especialmente a aeronáutica.

b) Assim como um medicamento chamado genérico não é genérico, mas específico no que toca o princípio ativo que preserva, assim uma ignorância em geral de alguém ou grupo é sempre uma ignorância em situação, uma carência informacional repertorial ante uma postulação problematizada ou ante a necessidade de um up-grade cognitivo, o que dá na mesma. Para brincar um pouco, mas a sério, a ignorância brasileira é de raiz e se abebera nos vocábulos alfabetizar, alfabetização, analfabeto, que geram em certas áreas acadêmicas expressões idiotas como “O nosso ilustre homenageado aprendeu as primeiras letras no colégio tal”. Uma expressão como a inglesa “literacy” já previne contra a proliferação da ignorância, como a que contaminou diversos setores educacionais jornalísticos e políticos, ante uma das poucas manifestações de inteligência do nosso poder educacional ao dar prioridade ao ensino das matemáticas…Continuaremos ignorantes enquanto não nos conscientizarmos de que o domínio da leitura e da escritura é know-how básico, tecnologia fundamental e fundante – e não fruto de demagogias educacionais e políticas, que não se cansam de bondosidades melosas relativas à cidadania e inclusão social.

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Ângelo Luís

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