ROSA D’AMIGOS

ROSA D’AMIGOS

(Décio Pignatari)

I

Esta é a rosa d’amigos (dirás:mesa redonda)
E o outro: é o Teatro Chinês
Com sua placa de argila
Onde a efígie se grava
Entre sombras perenes
(Confiamos)
De rosas mortais.
Porém, se com a fuga dos semblantes
Transmigrem juntamente as rosas,
Que cinzas de louros…que rictus azedo
Os nervos de vidro
Excita ou comove ao despeito ?

II

Esta é a rosa d’amigos(direi):
Aplaca sobre a mesa os cotovelos:
O que vai de pálpebra à pápebra
E da pálpebra à janela
Não vai da hiena ao abutre
Nem de ambos à alvorada.
Conciliemos:
O irmão ferido está de rosas rubras
E alterna sobre o linho
Marés de lupanares e santuários.
Irmão, a sangria das rosas lhes acalma a febre
E ao nosso linho reconduz os lírios.

III

Esta é a rosa d’amigos(dirás:mesa redonda)
Conciliemos ao crepúsculo:
Este vidro tem algo que não é dos vidros.

Irmão, a areia denuncia pés de sombra.
Eis que transfiguram nossa porta e batem
Batem menos à porta do que à dúvida.
Propomos à adivinha ou cumpre-nos jogar
Algum loto secreto que prorrogue
isto que nos engana de ainda sermos o que fomos ?

À porta não se engana.
Conciliemos lanternas e temores:
Se a pressentida funde a noite em rosas rubras
Não se conjuguem as marés fervendo a praia
Mas o terceiro escalará sete pilastras babilônicas
Para invocar os gumes frígidos de prata
Daquele que domina e não tem sangue mais aplaca.
Mas se a noturna tem pápebras cerradas
Pelo alcatrão que dez mil noites não segregam,

“Ah, que este jogo à dois é bem sinistro
Depois que o amigo esvaziou os bolsos no limiar
Fechando a porta sobre as dádivas mais súbitas!”

IV

Esta é a ronda d’amigos (dirás:rosa).

Joguemos às espreitas ou às rosas
Ou ainda aos baralhos nigromantes?
Nossos livros têm perdido o glosador mais sábio:
Quem enfrenta estas margens como lâminas recentes?
A noite é uma montanha escura em nosso vidro
Bloqueado contra insônia.
Acendamos a rosa sobre o linho.
(Branca de Neve em seu esquife de cristal
Aguarda por Narciso — o Príncipe Cantor e seu carme de vida.)

A imagem provoca a face real
E o príncipe Dilucular com seus clarins de cimitarra d’oiro
Sangra o dorso da noite
Revoga a lei do pântano e promulga a rosa.

V

Atenta, meu irmão,
À cavalgada dos bardos na alvorada
E ao vidro sonoro como espelho de pássaros!
Nos bastidores da janela
Os dedos de quem é maior que a lua, aquém do sol
E sobre o desespero, costura os meus andrajos
E borda em minha pele os seus canteiros de ouro:
Canaâ, meu irmão, Canaâ!
E uvas de luz como orvalho de fábulas do infante
E figos como beijos de Raquel em nosso sangue!
Assiste, ó meu irmão,
A transfiguração da porta:
Ei-lo que vem e despe as nuvens na soleira
E ao nosso coração — vaso da espera —
Conduz a rosa derradeira e a mais formosa.

Esta é a Rosa D’amigos (dirás:Rosa)
Conciliamos a primeira libação
Na orla do eterno.

VI

(Tudo será tão bárbaro e diverso.

Mas joguemos às rosas, meus irmãos:
Esta é a Rosa D’amigos (dize:Rosa).

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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