Harpa esquisita

Harpa esquisita

(Pedro Kilkerry)

Dói-te a festa feliz da verdade da vida…
Tanges da harpa, em teu sonho, almas e cordas, cantas,
Bóiam-te as notas no ar, a asa no azul diluída
E, assombrados, reptis – homens, não! tu levantas!

E apupilam-te a frente as mil pedras agudas
De ódios e ódios a olhar-te… E és um rei que as avista,
No halo, do Amor, que tens! se em colar as transmudas
Vais – um dervixe persa, o manto azul – Artista!

Inda olhar adormido abre, e é de ocre, e avermelha!…
Vem colar-te ao colar…e, oh! tua harpa esquisita
Plange… flora a zumbir, minúscula, que imita
A abelheira da Dor, em centelha e centelha.

E é a sombra… E o instrumento, a gemer, iluminado,
Como que à noite estrela um núbio corvo… E lindo
(Inda que as asas não no terás ao lado)
Por que os pétalos d’ouro, a haste de prata, abrindo,

Um lírio de ouro se alça?…Os passos voam-te, pelas
Ribas…Oh! que ilusões da flor, que tantaliza!
Sobe a flor? Sobes tu e a alma nas pedras pisa?….
Pairas… Em frente, o mar, polvos de luz – estrelas…

Pairas… e o busto a arfar – longe, vela sem norte.
Negro o céu desestrela, o seio arqueado: escuta.
No amoroso oboé solveja um vento forte
E, alta, em surdo ressoo, a onda betúmea e bruta.

A ânsia do mar, lá vem, esfrola-se na areia…
Seu líquido cachimbo é mágoa acesa, e fuma!
E chamas a onda: “irmã!”. E em fósforo incendeia
Na praia a onda do mar, ri com dentes de espuma.

De ametista, em teu sonho, uma antiga cratera
Mal te embebe – alegria! – alvos dedos de frio,
Eis se emperla o rosto e a prantear vês, sombrio
A onda crescer, rajar-se em brutal besta-fera!

Olhas… E, soluçoso, à música das mágoas
Amedulas o Mar e amedulas a Terra!
A sombra aclara… E é ver a dança verde de águas
E arvoredos dançando ao coruto da serra!

Gemes… Dedando o Azul as magras mãos dos astros
Somem, luzindo… Ao longe, esqueleta uma ruína
Em teu sonho a anervar argentina, argentina…
De ilusões, no horizonte, ossos brancos… são mastros!

Quente estrias a alma, à frialgem, nas cousas…
Que bom morrer! manhã, luz, remada sonora….
Pousas um dedo níveo às níveas cordas, pousas
E és náufrago de ti, a harpa caída, agora.

Ah! os homens percorre um frêmito. Num choro…
Move oceânica a espécie, amorosa, amorosa!
Mais que um dervixe, és deus, que morre, a irradiosa
Glorificação de ouro e o sol de ouro… à paz de ouro.

*

Ângelo Luís

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