Poesia de Francisco Settineri V

Esguia

Arrisco à dama o meu olhar furtivo
E a moça nem em sonhos imagina
A lava do vulcão que fugitivo
Crepita ao pé do monte que ilumina.

Pois que esse teu olhar deixou cativo,
Furtou de senso a mente a flor menina.
Estou privado de um lenitivo

E o brilho de tua face amar ensina.
À noite o meu desejo se escancara,
E custo a adormecer, sonhando a tua
Beleza que acontece e a dor sara

Enquanto caem as vestes e a nua
Moçoila que me deixa em falta amara
Me surge em sonhos feito arfante Lua!

Francisco Settineri.

*

Hera

Eu lanço a ela o meu olhar faminto
E a moça impenitente já se cala;
Nem mesmo a face esplêndida se abala
Por mais que seja forte o amor que eu sinto!

Irrompe a lava do vulcão extinto
E o corpo já se mostra como em gala
Como se o céu pudesse entregá-la
Às cores de uma tela em que eu a pinto.

Sucedem-se tremores nessas eras
Nas ruas e nos montes escarpados.
Renasce a lira por detrás das heras

E o pio da bela ave aos descampados
Ensina a todos quanto que tu eras
E deixa os corações atormentados!

Francisco Settineri.

*

Remanso

Raízes nunca fui de criar fundas
Na vida de um bardo aventureiro
Pois vate que se preza quer loureiro
Ainda que tenha de subir em andas…

E perco-me no mundo nas sentidas
Distâncias que percorro no sendeiro,
Um louco, enfim, e sempre sem dinheiro,
Capaz de acumular bem mais partidas!

E as vezes em que ando enregelado
A olhar mais um jardim de agapantos
Me fazem só lembrar de teus encantos
De novo eu não posso estar sentado.

Deserto dessa sina de andejo,
Derreto-me no teu olhar amante,
Não quero mais saber do andar errante
Tu és a fina Dama que eu elejo!

Francisco Settineri.

*

Barthesiana

Sei que o silêncio da indiferença foi tanto
Que as flores murcharam tristes e desfolhadas
E aquela que eu pensei ser minha doce amada
Já não merece mais do que um curto pranto…

Lágrimas derramadas contorceram o encanto
Que houve um dia na louca e densa madrugada.
Eu não sei mais dizer pra ninguém “minha amada!
E as belas rosas da estação eu já não planto…

Só sei que já não quero mais amar ninguém
Na volúpia ao luar que me manteve insone
E o barco solitário não quer ir além

Daquela cujas mãos a pureza destrone;
Olhar oblíquo que me fez um mau refém
E me fez esperar na fome e ao telefone!

Francisco Settineri.

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