A veloz raposa castanha salta por cima do cachorro (trechos)

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“Fora ele, e não outro, o instrumento escolhido para rasgar a carne do mistério e arrancar, do bojo dos enigmas, o câncer dos segredos. E de tal cirurgia guardara um relatório, em que a ficção se adapta ao documento, no sigilo do cofre da sacristia, junto das testemunhas oculares.”

“Amante delicado e discreto, cavaleiro que era, bateu de porta em porta, aos coices arrombando as alcovas de todas as suas trezentos e sessenta e cinco concubinas e escancarando as setecentas e trinta pernas que aos pares se fechavam, pétalas de recato, resguardando o segredo das trezentas e sessenta e cinco ostras que cultivavam pérolas vermelhas”.

“Com o auxílio dos cúmplices, que fingiam bebedeiras e serestas na calçada, desviando a atenção das sentinelas, o alpinista noturno escalou a fachada onde jazia o corpo que pretendia furtar às furtadelas, feito discípulo dos prestidigitadores, sem que a dona do corpo se desse por roubada.
A omissão do luar não lhe comprometia a empreitada, considerando o hábito de se mexer no escuro com tal desenvoltura que jamais esbarrava em coisa alguma que pudesse denunciar sua presença. Nem sempre indesejada, a julgar pela moça que, assim que foi tocada, despertou dos insípidos sonhos em que a sexualidade adolescia, para a degustação do inebriante tempero do feitiço. Como alguém que flutua, impunemente, na contramão de uma história de fadas.”

“Provocada pela visitação daqueles dedos sábios, acostumados aos trabalhos de parto das figuras de argila, a espontânea conivência da menina dispensou o lenço umedecido em éter, tanto quanto a mordaça.
O aprendiz de ladrão, que se comprometera, na própria concepção do ato de rapina, a cobiçar as formas ostentando um desprezo militante pela eventual manifestação dos conteúdos, escorregou no abismo da armadilha e mal se acreditou participando da delicada encenação do estupro que o entusiasmo da vítima exigia. O dia era da caça, poderia ter dito aos seus botões, mas estava despido.
Era de madrugada quando a quase mulher, esplêndida de estreias, guiou seu assaltante pelos inofensivos atalhos do labirinto que já acordara aos berros, como acordam quartéis e manicômios.”

“O bom filho à casa torna, sussurrou o locutor Abstêmio Falamança ao microfone, arrebatando os fluidos das prezadas ouvintes até o ponto de calda. E arrastou o que restava dos escrúpulos em um bolero antológico, daqueles que justificam a produção e o lucro das indústrias de lenços de papel. Privilegiado dono de um voz mais rouca quanto melhor sintonizada – qualidade que sucessivas gripes lapidavam – era mérito seu, entre outros vários, o ocasional degelo registrado nos países baixos de algumas empedernidas solteironas, viciadas nos efeitos do éter radiofônico, cuja existência a ignorância dos físicos desmente.
Mas, naquele programa, ele falava às viúvas; às trezentas e poucas das legítimas, que ainda penelopavam, e às quatrocentas falsas, solidárias, que jamais tinham sido cavalgadas pelo ginete pródigo, que capitão fugira e general tornava.”
“Única eu não sou mais, nem mesmo quero, pois que neste recurso represento as trezentas e quinze laranjas espremidas que bem ou mal vivemos, e também as cinquenta que, a esta altura da morte, já ficaram sabendo da barriga da terra os íntimos segredos. Todas nós pecadoras de um único parceiro, o capitão Armando, que o que ganhou em patente perdeu de ser esperto. Como é que um general com tal constelação lhe iluminando o peito, não percebe que está escorregando em direção às portas dos infernos? Nem lembra a profecia, como esqueceu do resto.”

“Como faria um cachorro com preguiças de agostos, Armando Guerra definhou em câmera lenta, espumando seus íntimos ocasos. Se fosse lícito engravidar da própria biografia, poderia ser dito que o general morreu de parto”.

“No ponto de fervura dos festejos, quando a euforia era paixão aos pares e a malícia entre os grupos, os telefones pretos dispararam, com o sóbrio entusiasmo de agentes funerários. Ignorados, os guinchos progrediram em direção ao desespero, tentando, em vão, atravessar censuras para atingir os ouvidos daqueles que não conseguiriam resistir aos seus apelos. Do outro lado da linha, o general era um cadáver autoritário, a exigir as urgentes providências necessárias ao seu sepultamento”.

“O receio por causa do presságio do fatal mau humor do magarefe, defeito de que o inocente pastor é que expiaria com uma quarentena de jejum absoluto das carnes da açougueira na sua dieta alimentar mais íntima, onde se dava ao luxo de soltar os demônios ambissinistros da lascívia e da gula”.

“Menos comprometidos com a moral da história, os assíduos inquilinos dos bares cogitavam sobre a possibilidade da anagliptografia ser uma ciência exata. Quantas belas mulheres o cego Fiat Lux teria acariciado atá as raias do orgasmo para guardar, na memória das mãos, tantos segredos e o preciso resumo da perfeição das formas do desejo?”

“O frio é consequência inexorável, que prescinde da confirmação de que a geada anda deitando espumas pelo parque, como extinguindo as chamas dos incêndios de outono em cada árvore. São esportes de inverno, neste rabo do mundo ao sul de qualquer parte, diversos sacrifícios, algumas das cegueiras, muitas das orfandades”.

“O trem parou. E não era todo dia que o monstro desabava em nossas terras, resfolegante, asmático, um pouco repousando da doideira que é sua paixão por léguas. Nem mesmo no verão, que é estação passageira, quase nunca o guarda-agulhas era obrigado a interromper a sequência inercial da sua ociosidade em direção à modorra da sesta. Muito menos com essa pompa toda, que faria outros mortos remorrerem de inveja.”

“O cego, farejando os perigos da temporada de caça que iria a ser aberta assim que o corpo ilustre se recolhesse ao ventre da esfaimada trincheira, tão rápido e mulato e raposa quanto era, se embrenhou na floresta. E nunca mais foi visto cutucando as paredes e as lajotas com sua bengala branca, rabdomante da sua sobrevivência”.

“Nenhum dos alfinetes parece ter notícias de Vladimir Bellochio posteriores ao grito, máscara silenciosa de um bocejo infinito escavado no rosto do coronel Armando Guerra, que se afasta da maca e do menino segurando os testículos, macroscópicas réplicas das esferas de massa que a criança pressiona, delicadamente em volta do equador e com maior vontade a partir dos trópicos, com a intenção de obter arredondados vórtices nos polos, como é normal e próprio do formato dos ovos”.

“Desse jeito é que foram se apagando no tempo, em festivais anuais de sofrimento, os humores do fígado, a dança articulada dos joelhos, o grosso do intestino e o delgado duodeno, a censura do esfíncter segurando os infernos, a vertebralidade da coluna, o dedilhar dos dedos, os músculos que fazem com que os lábios engulam o sorriso amarelo, o ouvido musical, o olho de lince e a análgica flexão dos cotovelos”.

“Talvez por ter de alguma forma percebido meu transe e seu motivo, o cego do meu lado, também agente novo no serviço, quis saber se eu já tinha privado com a dama que ele estava seguindo. Que não me preocupasse, que não era sexualmente transmissível o surto subversivo. Se fosse, ele me disse, metade da nação teria avermelhado, com vergonha de tanto comunismo”.

“Grávidas dos seus filhos, amantes que amamentam, na confusão do incesto os corpos se atrapalham, que todo amor é febre que se espalha entre o colo e os seios. Mesmo assim, resignadas aos ritos do matriarcal tormento, desaguardam e esperam, desesperam e aguardam o regresso filial dos seus maridos, aqueles doidos doídos, varridos e espanados, que ensaiam nas coxias das florestas os trabalhos de um parto imprescindível, talvez definitivo”.

Trechos de The quick brown fox jumps over the lazy dog = A veloz raposa castanha salta por cima do cachorro lerdo, de Jorge Rein. Porto Alegre, Scriptorium, 2014. Este livro pode ser adquirido com entrega gratuita em qualquer lugar do Brasil, por meio do contato: selo.scriptorium@gmail.com

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Francisco Settineri

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