Poemas de José André Lôpez Gonçâlez

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Giovanni Antonio Canal, dito Canaletto (1697 – 1768), “O Grande Canal e a Igreja da Saúde”, óleo s/ tela (1730), Museu das Belas Artes de Houston.

A Vivaldi

28 de Julho de 17411

Para o escultor Raul Rio Diaz
na mais funda lembrança de amizade

Imagina o doce padre melodias
pianíssimas nos sol pores dourados
de Caríntia, acordes compassados
de alada fuga no fugir dos dias.

Tremam duas tristes melancolias
nos claros olhos, velhos e cansados,
— pizzicato dos dias acordados —
e sonha um Piave largo de harmonias.

Declina o sol afagando o retarde
da lembrança e o mofo que perdura.
E ainda fica no lago a luz da tarde.

Estremece-se a vida em partitura
e o mundo entoa, adagio e maestoso,
um canto eterno polo Prete Rosso.

28 de Julho de 1995

____________

1. Este soneto é uma coda final à tradução dos sonetos que o genial compositor (Veneza, 4 de março de 1678 – Viena, 28 de julho de 1741) colocou nas três sinfonias (As quatro estações) de Il cimento dell´armonia de dell´invenzione. A tradução dos quatro sonetos do compositor foram publicadas na Revista Internacional da Associação Galega da Língua – Agália, no nº 54, Verão de 1998, páginas 227-229. Foi a primeira vez que se traduziam para português estes sonetos vivaldinos. Está próxima a sair uma nova edição revista, tirando as gralhas da anterior edição, na revista Círculo Edições.

*

Romeor de Caurel

NA MORTE DO GRANDE POETA GALEGO JOSE MARIA DIAZ CASTRO1

(2 de outubro de 1990)

O escultor Raul Rio Diaz deu-me a triste nova da morte do grande poeta por telefone dizendo apenas: “morreu o Diaz Castro” e mais nada disse. Eu fiz este soneto essa mesma noite, transido de dor, em homenagem e honra ao grande poeta.

“E um cão que estava deitado, ergueu a testa e as orelhas,
era Argos, o cão do paciente Odisseu, que o herói criara
mas teve de o deixar quando partiu para a sagrada Ilião”

Homero, a Odisseia

Honor àquele que navegou os mares
para voltar à Pátria inesquecida
e envolto na saudade lentescida
nos trouxe a nau povoada de cantares.

Bogaste junto a nós para nos dares
Nimbos de luz, e agora, na partida,
fica um recendo a erva florescida,
Ulisses Diaz Castro dos Vilares.

Por Vilarinho a terra se outoniça
e bradam os bois longos letargos:
“Um passo adiante e outros atrás, Galiza”.2

Um dia hão voltar passos amargos
e bandeiras de Parga a Pastoriza3
quando te reconheçamos, como Argos.

______________

1. O poeta José Maria Diaz Castro nasceu na aldeia de O Vilarinho da paróquia dos Vilares de Parga em 19 de fevereiro de 1914 e morreu na cidade de Lugo em 2 de outubro de 1990. Foi autor apenas dum só livro publicado, “Nimbos”, mas que mudou toda a poesia feita na Galiza até esse momento reconhecendo-o como um gênio da poesia.
2 . Verso do poema “Penélope” de Diaz Castro em seu livro “Nimbos”.
3. Parga e Pastoriza são duas vilas estremas da comarca central da Galiza, a Terra Chã.

*

DERRADEIRA VONTADE
(na eterna lembrança de Josefa dos Requechos1)

Deixai-me, bem seja breve,
um pedaço de lembrança
num floco de branca neve
quando eu morrer. Caia leve,
sossegada, quase mansa;
ouça-a eu como descansa
no colo da minha Terra.

E sinta que a selha berra
(cantava quando eu criança)
velhas cantigas da serra.

E recender novamente
no deleite da verdura
a nossa fala mais pura
nos lábios da minha gente.

E os risos da rapazada;
e da fonte que escorrega
nesta paisagem calada;
e o curto vó duma pega.

E o fumo duma lareira
sair do turvo das lousas.
Ressentir todas as cousas
tal qual fosse a vez primeira.

Apenas isto requeiro,
só esta ânsia procuro:
dormir sono derradeiro
numa Pátria com futuro.…

…………………………………..

Na manhã mais sonolenta
perceba na terra algente
cair a neve mui lenta…
lenta… lenta… lentamente…

…………………………………..
……………………………………..
______________

1. Josefa Cavado (chamada também Josefa dos Requechos por ser os Requechos o nome da casa onde nasceu e mora, na aldeia de O Cando em São Salvador de Parga, concelho de Guitiriz, Galiza) é uma poetisa popular que, sem nunca aprender preceptiva poética – apenas sabe ler e escrever – é capaz da construção dum mundo poético cheio de riqueza e universalidade

*

Poemas de José André Lôpez Gonçâlez

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