Poesia de Francisco Settineri VI

SETTINERI....
foto: Maria Alice Bragança

Curto-circuito

Ponga jumba draza muda,
Dumfa grumfa drólio dito
Jeito quieto feito mito,
Dinalete tor azuda.

Gáspia nunda séria lúndia,
Treme o vândalo nos pitos
Vai que penelopa o grito
E a torneira já se afúndia.

Gás me falta cosme leme
Freme o arsênio tornadrica,
Fito gásio nas buzicas

Lume trem faz mem saraste
Bom demais doleme geme
Marsupial que bem lembraste!

Francisco Settineri.

*

Angelo 32

Mil gigantes erguem lúcidos concretos
E nos mares madrepérolas vicejam
Entre ossos que nas praias nus alvejam
Borda a letra o meu poeta ao seu contato!

Esse invento, para ti, amplo contrato
Pra que lutes e nas lutas já nos vejam
Eis que o trom e o pesadelo se avantajam
E no vasto velo vulto eu traga o tato.

Bate firme aquela mão na nua aldrava
E a alvorada o devolve ao preamar
No silêncio que de pouco se contava

A epopéia o torna síndico do mar
Transe espuma jaz na derretida lava
Ele escreve pois não sabe recuar…

Francisco Settineri.

*

inscrição para uma agulha

disse o amor
que era
um destino

simples
fado
pequenino

mas a dor
não tinha
jeito

era
flor
de amor-perfeito

*

Murmúrio

Preciso do silêncio azul que não me atordoa
E quero me ligar à paz que só a água propicia,
Ah! Leva-me a ver os pássaros à beira da lagoa.

Vamos andar perdidos pela tarde boa
E ao céu brilhante que nos dá energia
Preciso do silêncio azul que não me atordoa.

Podemos circular por essa vida à toa,
Pois a calma tarde nos enche de alegria,
Ah! Leva-me a ver os pássaros à beira da lagoa!

Desejo a companhia que nada me apregoa,
Que em nada se assemelhe a uma tirania,
Preciso do silêncio azul que não me atordoa!

Eu quero um horizonte e uma fonte boa,
Mais tarde ouvir o canto de toda a saparia,
Ah! Leva-me a ver os pássaros à beira da lagoa.

Assim, amor, com remos que se perdem da canoa
Que pouco lembram ao vento a mão cansada,
Preciso do silêncio azul que não me atordoa,
Ah! Leva-me a ver os pássaros à beira da lagoa.

Francisco Settineri.

*

andarilho

sou o poeta
a sempiterna face
que se inquieta
e grita

sou o vate
o profeta
no catre
que faz mover-se

sem poluir
o tesouro desta vida
a fome, seu caminho
o norte…

Francisco settineri.

*

Instruções para dobrar pirilampos

Você pode reuni-los em uma caixa de goiabada, mas por certo os vidros são mais adequados. Para tanto, é preciso saber tocar de maneira correta as suas patinhas, que assim se flexionarão e recolherão docilmente. É como a roupa que se dobra, entregando-se à natural suavidade dos dedos. Essa empreitada deve ser realizada ainda no verão, pois o que chamamos de vaga-lumes são os insetos machos, que duram apenas por volta do período do acasalamento. Antes disso, o que você teria para dobrar seriam larvas ou pupas. Devemos ser rápidos em sua captura, para que os vidros possam ficar cheios. Alguns cálculos aritméticos orientarão a captura, levando-se em conta a largura e a espessura dos pirilampos, assim como o comprimento e a área dos círculos a serem cobertos. Entre uma e outra camada de vagalumes, um círculo de papel manteiga ou de seda. Não se pode encher demais os vidros, para que os animaizinhos não fiquem machucados e com pouco ar, em sua hibernação forçada. A surpresa luminosa pode vir no quarto ou na sala de jantar de luz apagada. É o momento, numa noite quente de verão, de afinal soltar essas pequenas criaturas tão aparentadas com as estrelas e com os sonhos.

Francisco Settineri.

*

a mulher chora na rua

desperto do sono.
palavras em choro sentido
na rua em frente.
Tento chegar perto
da sacada fechada.
Não ouço direito a fala
(volto à poltrona)
de cortar o coração.

Francisco Settineri.

*

Cena

folhas de loureiro
que plantei
no prato que era de minha avó
secam.
Esperam o arroz.

Francisco Settineri.

*

Insônia

Soam horas, e a noite, lentamente;
Vai-se a recordação, tensa vigília
Eis que perscruto ou olha-me a mobília
De qualquer forma é dor sempre mordente.

Pingentes dos cristais, brilho aparente,
A foto em sépia vinda da Sicília
Muda a lembrança da esquecida homília
Que nada diz e deixa indiferentes!

Rola na plebe a algaravia inculta
Tudo parece mera hipocrisia
Alegria alheia que tanto insulta

O terno abraço que ganhei um dia:
Dança e lamenta a lágrima insepulta
E que prolonga ao mais essa agonia!

Francisco Settineri.

*

indessência

Goldrar as alternas
e limar um lisinho
forçar a semântica
até que ela expluda
e solte um caldinho.

Francisco Settineri.

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