Dois poemas de Ezra Pound

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Dois poemas de Ezra Pound

nota e tradução de José Lino Grünewald

Lamento do guarda da fronteira é uma das traduções inclusas no Cathay, publicado em 1915, que Ezra Pound realizou a partir do chinês, e baseado, na época, em Rihaku, nas anotações de Fenollosa e nos trabalhos de decifração dos professores Mori e Ariga. Um dos múltiplos e mais eficientes aspectos das atividades de Pound foi o de tradutor. Conhecendo diversos idiomas e estudando as várias manifestações poéticas, através dêles expressadas, revivificou na língua inglêsa peças de inobjetável importância que permaneceriam praticamente desconhecidas. Seu empenho em promover a poesia trouxe à tona uma série de obras, muitas das quais provavelmente valorizadas, ou então, reatualizadas, mediante suas versões de indiscutível teor criativo.
Portrait d’une femme é um poema publicado em 1912 no volume Ripostes. Está nitidamente vinculado à linha Corbière-Laforgue (no presente caso, êste mais do que aquêle) à qual confere Pound extrema importância para o desenvolvimento do que êle próprio denominou logopeia. É de se sugerir, outrossim, que se compare êste poema com o mais (e injustamente) famoso Portrait of a Iady, de Eliot, que apresenta uma fase de sua obra também visivelmente influenciada por Laforgue .

Lamento do Guarda da Fronteira

Pelo Portão Norte, pleno de areia, e vento sopra
Solitário, desde a origem do tempo até agora!
Caem árvores, amarelece a grama no outono.
Tôrres e tôrres escalo
para divisar a terra brava:
Castelo assolado, o céu, o largo deserto.
Não restou muralha alguma nesta aldeia.
Branquearam os esqueletos aos milborrifos da geada,
– Elevados cumes, cobertos de cruzes e capim.
Quem causou a passagem disto?
Quem provocou a flamejante fúria do império?
Quem trouxe o exército com seus tambores e tímbalos?
Reis bárbaros.
Uma primavera suave tornou-se outono de sangrenta voragem,
Torvelinho de guerreiros se espraia reino adentro,
Trezentos e sessenta mil,
E tristeza, tristeza como chuva.
Tristeza no partir, e tristeza, tristeza retornando.
Desolados, campos desolados,
E nenhum rebento da guerra nêles queda,
Nem mais os homens de ataque e defesa.
Ah, como saberás do sombrio pesar no Portão Norte
Com o nome de Rihaku esquecido
E nós, sentinelas, para pasto dos tigres.

*

Portrait Dune Femme

Tua mente e tu sois nosso mar Sargaço,
Londres marulhou em tôrno a ti nesses anos marcados
E reluzentes vapores te deixaram isto
Ou aquilo em paga: idéias, velhos bate-papos
Extravagâncias de tôdas as coisas,
Singulares filetes de erudição e
Embaçados artigos de luxo.
Homens de espírito a ti recorreram –
A falta de alguém mais.
Foste sempre a segunda. Trágico?
Não. Preferiste-o ao fato comum:
Um ser enfadonho, medíocre e submisso,
Uma inteligência média –
Com um pensamento a menos cada ano.
Oh, és paciente; já te vi sentar
Horas onde algo emergir poderia.
Do teu cismar, lentamente, à tona.
E agora pagas a um. Sim, sobejamente pagas.
És uma pessoa de certo interêsse – um vem a ti
E leva consigo uma curiosa experiência:
Troféus suspensos; alguma sugestão peculiar;
Evento que a nada conduz; a uma história ou duas
Prenhes de mandrágoras, ou com alguma coisa mais
Que mostrar se pode útil e todavia jamais o revela,
Vazio nunca preenche ou então utilidade denota;
Mesmo sua hora não encontra na passagem dos dias:
Uma bela peça antiga, empanada e potentosa;
Ídolos, âmbares e raros adornos,
Tais são tuas ricas, tuas grandes reservas, porém
Para tôda essa provisão marinha de coisas efémeras,
Estranha carpintaria semi-ensopada, e
Novas e mais cintilantes ninharias:
No lento flutuar de diversas luzes e profundezas
Não! Não há nada. No todo e tudo
Nada que inteiro seja teu.
Tal, no entanto, és tu.

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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