BESTIÁRIO – 2

20081013_rodchenko_jeltoe_i_krasnoe

Alexander Rodchenko
amarelo e vermelho, 1918

ovelha

des-
garrada
de longe
o olhar
mira
sem espanto
e escuta
frágil
a sua primeira
textura

e a cada vez que respira
vê que agora
não vem
como
e porque
está
morta

Ângelo Luís

*

garça

o peixe
ao bico
deses-
perado
move

branca
altiva
salta
fora
a pernalta

não se
comove
asa sobe
e vai

Francisco Settineri.

*

elefante

sempre
deixa
forte
a sua marca

deve ao seu
passado
a sua comarca

velho
assustador, o
oligarca

Francisco Settineri.

*

Minhoca

desliza
sem aviso
ate desaparecer
sem ruído
por uma fração
de segundo

Ângelo Luís

*

bugio

decrépito
desata
a vaia
ao mato

o vil
arauto
ao vento
ataca

a boca
aberta
ronca
o estrépito

Francisco Settineri.

*

Pernilongo

No quarto escuro
o voo se estende
zoombido
rastros sangrentos nos corpos

Em migalhas o sono se vai
pescoços dependurados
há muito sumiu
na palma da mão

Ângelo Luís

*

aranha

perambula
sempre feia
de um só golpe
desalmada

filigrana
costurada
ponta a ponta
amarrada

ela espera
o seu prato
desde sempre
armada

Francisco Settineri.

*

caracol

destece a vida
em seu abrigo
até sumir-se
de súbito
esparrama
incomunicável
o último
sentido

Ângelo Luís

*

jararaca

bote pronto
leve ao ar
nenhum rato
atordoado
escapa
.
o vestido
é nua escama
seu olhar
inflacionado
ataca

Francisco Settineri.

*

abelha

sem perder o ferrão
vá o que valha
tira e atira
até acertar o alvo
quando se avulta
e corre adiante

Ângelo Luís

*

zebra

pata
explode
o bando todo
alado
ao lado
vai

branca
e preta
a carne
exposta
o leão
quer

salto
a dor
um vendaval
o animal
mortal
celebra

Francisco Settineri.

*

barata

explode em casca vil
ataca
a mil por hora
em asa
torta

corre no parquê
mil pés
querendo
vê-la
morta

Francisco Settineri.

*

libélula

leve
no ar
libera
e nivela
o pouso
mantendo
seu voo
sob
a chuva

Ângelo Luís

*

cupim

bola de barro
espera e espreita
em furos feita
e escarro

no campo ao vento
o monumento
num acidente
atesta

o lenho era
duro esmero
hoje em grãos
protesta

Francisco Settineri.

*

escorpião

escondido
nos escombros
ali jaz
em uma das paredes
pronto para o ataque

Ângelo Luís

*

coruja

olhar duro
vindo abaixo
muito séria
a dita cuja

voo queda
muita farra
uma fuga
já desfeita

camundongo
na surpresa
filosofa
o subterfúgio

Francisco Settineri.

*

rinoceronte

do fundo das eras
a casca
grossa espera
a sua vez

aponta o seu
nariz
pra cima
o grande monte

Francisco Settineri.

*

mosca

espia
o pão de cada dia
sem acertar o alvo

a esmo
a mesma moléstia
sem alarde

solta
à toa
está a toda

Ângelo Luís

*

camaleão

olho imóvel
jeito velho
muita cor
mas quieto

camuflado
língua bomba
o que quer
incerto

Francisco Settineri.

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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