Bento Ferraz sabe o que faz

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O artigo sobre mim mesmo, por Bento Ferraz

Bento Ferraz nasceu em São Paulo, em 1953, e começou a escrever poemas e canções aos 15 anos, em 1968, que chama de “ano mágico”. Era o tempo da agitação política, no Brasil do AI-5 e no mundo do Vietnã, tempo dos festivais de MPB e do surgimento de grandes artistas no cenário musical e poético do país, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento ou Paulinho da Viola – algumas de suas referências musicais e poéticas.

Em 2004, depois de longo amadurecimento, lançou simultaneamente o primeiro CD autoral, “Eu Só Ouço a Janis Joplin”, e o primeiro livro de poesia, “A Tua Geografia”. Em 2006, produziu com Nanih Junho o segundo disco, de parcerias, e no mesmo ano teve seleta de poemas publicada no número 106 da revista Cult. Escreveu em 2008 o livro “The Beatles – 50 Anos Depois”, biografia editada pela DBA no mesmo ano, celebrando o encontro mágico de Lennon e McCartney.

Em 2009, lançou canções próprias e também parcerias com a compositora Val Gonzalez no terceiro disco, “Alquimia”. Em 2013, lançou também simultaneamente o quarto CD, “Narciso ao Espelho”, e o segundo livro de poemas, “Prece Insana”.

Desde 2014, continuou a produção de canções e poemas, com parte da obra publicada digitalmente via Internet. Este material compõe seus planos – e sonhos – para 2016, que incluem a gravação de dois novos CDs e a edição de novo livro de poemas. Além disso, projeta já para ano apresentações poéticas e musicais em espaços públicos e privados. Seu e-mail para contato é: bentoferrazfev53@gmail.com

***

POEMAS

Medo. Medo do medo.
Cedo? Não tão cedo.

EU GOSTO DE VAN GOGH

Eu sou um louco
e a caneta Cross
com que escrevia não tem tinta.
Eu quero ser um pouco o teu algoz,
e eu sou Van Gogh enquanto pinta.

ABRIGO
Para Vilmaria

É belo
todo, qualquer mistério.
É fosco
todo, qualquer arbusto.
É clara
a noite, e a madrugada.

É santa
toda, qualquer pessoa.
Lúdica,
toda a minha dúvida.
É mantra
o canto que te canto.

Espera
é a esperança.
Apuro
é ponto de fuga.
Abrigo
é dizeres: fico.

COMO CARAMELOS
Para Ondina

Quarta-feira tinha feira na Água Fria
e a rua era ladeira e eu subia
com mamãe.

Uma placa bem na beira da bacia
tinha letra escrita a mão que prometia:
CARAMELOS.

Seus sabores bem na língua: que delícia!
Mas bem antes, suas cores eu comia
com os olhos.

Hoje em dia, quarta-feira, todo dia
eu rumino sentimentos belos:
como caramelos.

GANGORRA

Que vou fazer de mim?
Não sei.
O que será de mim será.
Ao menos me socorra
a lei: inocente pela dúvida.

Gangorra no meu
coração:
até quando se contrairá
o músculo, eixo-motor?
Não sei quanto suportará.

Gangorra do meu
querer bem:
acima de meu suportar.
Gangorra de lamber o céu,
gangrena de bater no chão.

Gangorra de deixar pra lá
o que não poderei dispor.
Socorra-me chegar pra cá;
e dançar um baião-de-dois.

MENTE SÃ

Minha mente não é sã.
Meu corpo,
nem um pouco.

Vagueio desertos,
tento a fuga de labirintos,
saída não há.

Descalço, sangrando,
eu procuro paz
e dou risada.

MINÉRIO

A pedra, enquanto pedra, encanta:
objetal, penetra nas retinas.
Se é metal, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto.

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PALAVRA

Estranha criatura que se entranha
em frestas, por espaços proibidos
e prova cabalmente sua sanha
ao preencher o nada com sentido.

No tudo que voraz alto proclama
um todo poderoso é permitido:
de cores infernais acende a chama
e canta seu cantar também libido.

Arremete-se ao ar e se faz signo;
cantada, silva ouro e prata e cobre.
Importa inda que o tempo se desdobre,

cascata de metal se torne magma.
É bola de cristal que feito maga
põe liga incidental na língua ígnea.

DUPLO

Cá estamos sozinhos nós de novo
na carne que encerra um e outro,
cada um à própria revelia,
cada qual, insana companhia.

Nós que sendo um somos nós dois
(monólogo aparente), depois
usamos palavras, mais as vãs,
intuito de tal eu – tal afã.

As falas não se falam, silêncio,
sim, o receptáculo e aparência
de um e outro, que somos tão

assemelhados, dessemelhantes,
um que fala sim, e outro não,
mantendo-se intacto seu semblante.

ÍNFIMO

Conquistar, de peito aberto
o que a vida propõe, ainda mais!
Atravessar as trevas do deserto
e provar que sim, eu sou capaz.

Atiçar o fogo, que era brasa,
andar pelo bosque e ser feliz.
Um ardor ardente não atrasa
o que tenho feito e o que fiz.

Cantar em voz alta as canções
que contam de mim e o mundo em volta
contra todas as esfinges, faraós,

perscrutar o máximo e o mínimo
persistir nesta lida resultante,
lapidar então o que for ínfimo.

ESCRAVA

O pensamento torna-se palavra,
esta palavra tudo já permeia,
nomeia tudo, é singular e lavra
o frágil signo da concreta areia.

Assim se tece irregular a teia
que resplandece em seu fulgor e crava
em cada olho fulgor que clareia
e orações se tornam reza brava.

Num salto que gira e dá volta e meia
a voz hesita e seu sentido trava,
mas o ouvido sem querer tateia

e arrebenta toda e qualquer trava
e dois se falam agora em cadeia
e a palavra não é mais escrava.

SONETO DA AMIZADE
Para Francisco Settineri

Mão estendida nos momentos duros,
nau que persegue a mesma imensa rota.
Sonhos iguais no sono enquanto durmo:
já se compõe toda uma imensa frota.

Ao navegarmos, portos mui distantes
são o destino desta confraria:
ficou no tempo, no tempo presente,
um largo tempo preso na memória.

Nosso tesouro: nem ouro, nem prata.
É o viver que sempre traz consigo
nó que, tão forte, nunca se desata.

Eu bem que tento, mas eu não consigo
dizer direito bem do que se trata
uma palavra que é chamada amigo.

VAGO

Quem será dono de si, indago,
se Sorte é a última palavra,
se força e suor enquanto lavra
apenas torpor produz, e vago.

Acerca-se à mesa, d´água e pão,
e o dente que range se apodera;
o prato vazio é duro e vão,
e as sobras que ficam são quimera.

Do pasto ao amor que dilacera
a fome é a mesma e torna fera
o ente na sua solidão.

Talvez que Amor seja só espera
de gozar o ardor da primavera
que nega seus frutos no verão.

INSONDÁVEL

A casa da minha rua
não é a casa da minha rua
nem eu sou mais que sou eu.
A casa da minha rua
era dia e noite escura
quando – tarde – anoiteceu.

A minha palavra dura
não é a minha voz dura
que repente emudeceu.
O grito que na garganta
por vezes até estanca
fala mais de mim que eu.

Num pensamento insondável
eu finjo que penso ágil
em tempos de amanhecer.
Que breves! Insaciável
a noite vem de passagem
e retorna o adormecer.

TALMUDE

Infenso à dor, a toda dor infenso,
mesmo à voragem que se me perfia,
aguardo a noite se guardar em dia,
nestes instantes nada, nada penso.

A luz mortiça brilha numa vela,
transgride a treva tanto quanto pode.
Componho então espécie de uma ode
tão baça tanto quanto se revela.

A luz opaca é meia negritude
e em cantá-la um pouco se revela
todo meu ser, o tudo quanto pude

apoderar-me da ígnea, singela,
que permitiu ler trecho do Talmude
– sim, a incorpórea luz de uma vela!

ARANHA

Tece sua teia,
tateia, tateia
até sua ceia.

TURVO

Estive só, abandonado à sorte,
tenaz açoite que então me afligia.
Espelho turvo, sem rumo nem norte,
mas é a noite que define o dia.

CEROL

Cantar todas as dores, entanto
fio de luz em tom maior bemol,
coração e vísceras – eu canto!
O meu fio de pipa tem cerol.

Fim da tarde espelho meu embaça
e no vidro emerge outra figura,
serve-me veneno numa taça
– pelo menos é o que me afigura.

Quando atento tento discernir
o que em meu olhar se distingue
escuto um tal zunir de estilingue

que me aponta já e no devir:
canto meu encanto mais profundo,
canto no meu canto a dor do mundo.

CINZEL

O paço que transponho eu passo
ao passo que suponho o sonho.
A névoa que semeio eu laço,
o embaço que me cega eu sonho.

A corda que encadeia eu sinto
o cinto em volta do pescoço.
A tarde que entardece eu minto
que fosse como fosse moço.

A frase que falseia escrevo
na tela com que teço o céu.
Se a rosa é uma rosa o cravo

não tem nada de tom pastel,
e em minha própria mão eu cravo
a nulidade do cinzel.

TINTA

Poeta?
Estou no íntimo panteão ínfimo
de duas ou três – quantas? – pessoas.

Dedico-me, é certo, a escrever,
tanto que ocorre de você agora
me estar lendo.

Decerto a tinta escorre
como ocorre em tantos outros dedos
de outras mãos.

Encerro, ou não?

Prossigo, que a vida obriga
a que a siga.

VERDUGO

Que tempo mais inútil, o da espera
do que nunca virá logo em seguida.
O frágil e fugaz que são a vida
insistem em tecer novas quimeras.

Persisto em atingir a redenção,
mas devo dirigir-me a qualquer santo?
Deveras esta cisma causa espanto
e crispo novamente a minha mão.

A dúvida de hoje se esparrama
por tantas outras noites, outros dias,
não sei mais confrontar essas porfias

e lenta e calmamente vou à cama
e evidentemente que não durmo
sabendo-me de mim o meu verdugo.

POIS É
Para Ângelo Luís

Poesia
pois é
poesia
não
poesia
talvez
poesia
sim
todavia.

HERANÇA

Fiz pouco caso do silêncio mudo,
foi quando tudo me dizia nada.
E no vazio me quedei, contudo,
fiz pouco caso da palavra herdada.

Eu me vesti de terno e sobretudo,
eu fui à festa e desfrutei salada.
Mas o que fiz, é claro, sobretudo,
foi atentar sobre a palavra herdada.

Em que mistérios se transmuta o mundo?
De que maneira a coisa será dada?
O que existe se cavar mais fundo?

Já concebi na mente a luz quadrada.
A sinfonia do silêncio mudo
faz pouco caso da palavra herdada.

NEXO

Balbucio beba bulbo bálsamo.
Desconexo deixo queixo quíchua
o saleiro salga sons de gueixas
seca a sede no fulgor de salmos.

TRANSCENDÊNCIA

Amor transcende a tudo quanto
se possa aflorar a cada dia
no meio da lida e da porfia,
estanca e incinera todo pranto.

A quem deu Amor a sua bênção
fulgura no rosto a sinfonia
daquilo que pode, e poderia,
lidar com andar em ponte pênsil.

As brumas de Amor estão num horto
e tudo que se toque é já veludo,
e quem se vê nelas, sobretudo,

estira sua rede no seu porto,
ainda que Amor esteja mudo,
ainda que o amor esteja morto.

OLHAR

O que se olha?
Como é que se vê?
Como se olha?
O que é que se vê?

Prima regra,
qualquer coisa:
desintegra.

HORIZONTE
Para Vilmaria

Como pode ser, a meu amor indago,
no âmago do ser penetre tanta paz…
Olha-me, desnudo-me, em tanto afago
a convulsão de alma já se me desfaz.

Se chega a calmaria, meu amor, apago
o rijo e denso rito de sentir-me só.
As águas não são rio, já se tornam lago,
as nuvens se dissipam, e impera o Sol.

Anseio neste dia que se tornem sempre
azul o céu e amplo o meu horizonte,
concreto meu afeto, e tal qual corrente

que roce o suor sobre esta minha fronte,
que deixe minha alma se somar à mente
e lime do fitar o que se me defronte.

ABRUPTO

Um poema de ontem serve para hoje?
E para amanhã?
Serve para sempre?
Se serve para sempre, para que serve?

Ecoa em alguém? Escoa no ralo?
Diz mesmo o que fala? Vale um vintém?
Aguça uma mente?

Encerra-se tão
abruptamente.

CARTA ABERTA

O dia vai esmaecido,
eu em busca de sentido
nenhum.

Uma contagem regressiva
vai postar uma missiva:
dois, um.

FOCO

O que não importa
importa tanto
quanto o que importa.

 

***

E o círculo se completa:
nenhuma palavra
pertence ao poeta.

Seleção de poemas, por Ângelo Luís.

***

Narciso ao Espelho

*

Olhar com Amor

*

Conforme a Música

 

***

Ângelo Luís

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