POESIA DE FRANCISCO SETTINERI VIII

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Alexander Rodchenko – Three monochrome, 1921

Moto contínuo

Tenta sempre ser reto e o ar altivo
Mesmo que sobrevenha uma derrota,
Busca no coração o teu motivo.

Nunca serás do fascista o cativo
Mesmo que ele te trate com chacota,
Tenta sempre ser reto e o ar altivo.

Mesmo que num mundo mais opressivo
Já comande o bandalho, o idiota,
Busca no coração o teu motivo…

Seremos, um pro outro, o decisivo
Disso todos sabemos, e anota:
Tenta sempre ser reto e o ar altivo…

Assim, irmão, prepara o que é festivo,
Que já mora no voo das gaivotas,
Busca no coração o teu motivo!

No outro lado habita o lascivo,
No mar estará sempre a nossa frota
Tenta sempre ser reto e o ar altivo,
Busca no coração o teu motivo!

Francisco Settineri.

*

Luta de Classes

Tem futuro quem conhece a sua história
Que não deixes de entrar nesta disputa,
Preparados estaremos pra vitória!

Que os vilões estejam juntos, toda a escória,
Faça o povo preparar-se pra cicuta.
Tem futuro quem conhece a sua história.

O poeta não tem outra escapatória
A não ser opor seu verso à força bruta.
Preparados estaremos pra vitória!

A chamada para todos, compulsória,
Nossa força é sideral e absoluta.
Tem futuro quem conhece a sua história.

A bancada do demônio e sua oratória
Já demonstra como ser a prostituta,
Preparados estaremos pra vitória!

Que esta luta nunca seja luta inglória,
Levantemos a bandeira! Anda! Escuta!
Tem futuro quem conhece a sua história
Preparados estaremos pra vitória!

Francisco Settineri.

*

Encontro Marcado

Tu foste para mim uma surpresa
Na tarde da visão mais constelada
E lindo foi teu rosto e foi mais nada
Que fez de mim a tua frágil presa!

Depois a lua infante foi acesa
E a letra da canção então foi dada,
Violas entoando o que é da amada
Na madrugada pura e indefesa…

De onde te surgiu lembrança amara?
Porque tu escondes tanto o que tu sentes?
E aos olhos que brilhavam não faltaram –

Sabias que eu não era indiferente -,
Tremores em tua mansa pele clara,
Palavra engasgada entre os dentes!

Francisco Settineri.

*

Em Despedida

Alarga entre as tuas mãos o que é da vida
Memória de um silêncio tenebroso,
Jamais tu a terias indevida.

Trombetas tu ouvirias na partida
A um mar a todas luzes cobiçoso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida!

Tu tens toda a alegria e a fronte erguida
E o céu que te recebe o ar grandioso,
Jamais tu a terias indevida.

Tu partes para a terra prometida
Diáspora de cheiro delicioso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida.

Assim, não chores mais na despedida
Afasta do teu rosto o ar saudoso,
Jamais tu a terias indevida.

Enfim, que nunca vejas reduzida
A veia que te deu ardor ditoso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida
Jamais tu a terias indevida.

Francisco Settineri.

*

Estrela Vária

Amanhã, poeta, permita guiá-lo
A estrela que muito alto revela,
Enquanto você constrói sua capela
Que o mantém como um imóvel vassalo.

Tome, todavia, as rédeas do cavalo
E busque na bruma a alma da donzela,
Cruze toda a noite até a cidadela
O mundo está pronto pra você montá-lo.

Desliza pelas sombras, mais imprecisa
Que toda forma que escapa, e assim precoce
Dá-se toda, entretanto, à mão que alisa

E que não busca nisso nada de posse…
Tenha nisso seu mapa, a sua divisa
E não terá na vida lira tão doce!

Francisco Settineri.

*

Homenagem a Affonso ávila

Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro
Dos primevos passos mansos na enseada
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

A vida inteira me fez um guerreiro,
A paz que acreditava era cilada
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro.

Eu beijo com o ardor de um cavaleiro
O tolo desconhece a sua amada
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

Meu verbo vai com a força de um arqueiro
Levar o inimigo à derrocada
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro.

Mas veja, da tua pele eu amo o cheiro,
E vejo em todo o ser minha chamada
De quem te amou tão triste e tão primeiro.

Assim sou teu amante sobranceiro
Convoco a letra em última chamada,
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

Francisco Settineri.

*

Barricadas

Vejam, vejam o que lhes restou do Norte
Pois sua luta foi somente virtual,
Escaparam de se expor ao braço forte.

Luta e barricadas sejam nosso forte!
Destemida seja a luta corporal,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte.

Quem quer ter um futuro não teme a morte
Os que temem escapar de um funeral
Escaparam de se expor ao braço forte.

Quem espera em sua casa a boa sorte
Sofre o medo mais do que tradicional,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte.

O momento é perigoso e de tal porte
Que os que fogem da luta descomunal
Escaparam de se expor ao braço forte.

Camaradas, esta luta é a de morte
Para as ruas, enfrentar o bestial,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte,
Escaparam de se expor ao braço forte!
.

Francisco Settineri.

*

Penumbra

Eu tenho o raro dom da letra, essa façanha
E assim cantar os belos fados, poder tê-los
Poeta sempre fui e a noite me acompanha
E olho firme pros teus olhos com desvelos.
Escrevo um verso que me vem lá das entranhas,
Delícia de correr as mãos por teus cabelos
.

Frncisco Settineri.

*

tanka mudo

tuas lágrimas escorrem pelo rosto
e secam logo o meu carinho mudo.
No mundo vai-se o sal de um olho triste…

Francisco Settineri.

*

Mácula

Não deixe que se esqueça o olho antigo
Atenta com frescor e sua brancura,
Ampara como pode o ombro amigo.

Da árvore que colhe doce figo
Aprenda o manancial e a formosura,
Não deixe que se esqueça o olho antigo

A mágoa ao coração é um perigo
E mesmo o justo peca em sua loucura,
Ampara como pode o ombro amigo.

Argila um dia eu fui e hoje sigo
E falho ao me infligir grave tortura
Não deixe que se esqueça o olho antigo.

Perdão é tudo aquilo que persigo
E digo, irmão, que siga na procura,
Ampara como pode o ombro amigo!

Não leve o rancor de um inimigo
Que nunca o acompanhe à sepultura,
Não deixe que se esqueça o olho antigo
Ampara como pode o ombro amigo!

Francisco Settineri.

*

Bocas

beijos nas brumas
entre paus e pedras
e pernas bem hábeis
na beira do ócio
e pegam na boca
botija incontida
o cio esperado
à beira do óbvio
que muito queria
do lábio sortido
que simples se abre

Francisco Setineri.

*

Plenilúnio

A sombra de uma falta foi tão negra
Que logo me tomou e me abateu.
O brilho de uma noite em que fui teu
Não foi o que eu pensara como regra.

O pouco do que sobra e que me alegra
Lembrança do que fui em lábio teu
Não foi apenas sonho que morreu
Recordo que jamais se desintegra.

Vaguei depois no mundo em rumo incerto
Lembrando o diadema que correu
Na basta cabeleira e o perniaberto

Que o nosso leito em festa acolheu
Eu tanto te queria, tão mais perto,
Não era outro poeta que não eu…

Francisco Settineri

*

Acordei cedo
Não dei aos versos mais nenhuma trégua
Falando ao povo sempre a mesma língua
um pouco mais do que um segredo

Não tive medo
E fui desde o começo
aquele que disse a ti que era verdadeiro
Pois sempre soube
que era muito mais
E forte porque foi o primeiro.

Francisco Settineri.

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