5 poemas

não me importa a cor sem cor
a dor sem dor, a luz mais escura

na parede, no retrato
no espaço, na pedra: impacto

marcas, linhas, nós, caos
noite e dia: em cada canto

fixa invisível
perco o vazio: escapo

*

o v o o veloz de asas breves de leve v o a m

como a m a r-te sem ter-te?

o que é d o n o m e
o sobrenome não s o m e (h o m e m)

*

bolor

b o l o r c a l o r a b a f a e s t a f a 
a b a f a e s t a f a m o f o a s f i x i a
m o f o a s f i x i a f r a g m e n t o f r a g r â n c i a 
f r a g m e n t o f r a g r â n c i a f e r m e n t a a s f i x i a
f e r m e n t a a s f i x i a m o f o e s t a f a
m o f o e s t a f a a b a f a c a l o r
a b a f a c a l o r a b a l a e s t a l a
a b a l a e s t a l a a s f i x i a e m b a l a
a s f i x i a e m b a l a f r á g i l á g i l
n ã o v a i e m b o r a
n ã o e m b o l o r a

*

medula

a cor medula 
existe, vermelha
brilha, beleza rara…

*

tua existência
não é por acaso

só ria
de si mesma

e cravo

 

*

Ângelo Luís

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ARGILA

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Argila

9h

como se fosse uma manhã longa
cheia de entusiasmo
sem aviso
é preciso dar um jeito
é a vida
ainda ausente
imóvel
de um corpo receoso
que ousa esconder a face
e o gosto amargo da garganta
voam pássaros em batidas de asas vazias
o coração sangra preso ao vento
as horas passam

11:30

de vez em vez
decifro ideias
decifro palavras
o grito
a apatia
além da agonia
no meio dia
de quando em quando

16h

viagem sem sair do lugar
por detrás dos escombros
só um aviso
a boca não abre
a boca não
a boca
a sede
a falta de sede
cede lugar
de graça
no ócio
do dia
e divide
o sentido imóvel
para não voltar
diurno
as horas nunca serão suas

21h

nenhum não
estranha
as entranhas
que nos acompanha

22h

o amante mórbido
no seu desejo
monótono
derrama
a morte

23h

tanto pior
os desejos
de quantos males
verão extiguir-se
o pouso noturno
do voo inútil
sem poder fugir
de si
meia -noite
por um fio
o vazio
se arrasta perdido
sem me libertar

3h

o repouso justo
dos vivos
aguarda a hora
pela última vez
nunca mais
salve-se
quem não estiver

*

Ângelo Luís

2 poemas

qual sen
quer tido
como se
nada tiv
esse perd
ido nenh
uma

coisa
o ví
cio mais
íntimo
vai
o ouvido
ínfimo
vem
algumas coisas são
outras
quem?

*

abre a cota a conta e conta
quem quiser outra vez e de novo cometer o mesmo erro
e erra sem segredo porque não é do mesmo modo
não é mesmo para rever o que não se lê
e mais nada enquanto tudo flui influi o tanto é ponto
a mesma questão que não quer ser resposta
agora o que importa é a dúvida até espiar o segredo
quem puder ver que esconda
o som a soma o sono mais de uma voz
você revive e faz sumir
quem se importa com o fim se afinal o grito o cio silencia
o argumento agora é outro

*

Ângelo Luís