Palavra Presa

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‘The Witnesses’
by Veri Apriyatno

Palavra Presa
.
Quando as palavras se acumulam
deslumbradas
impacientam-se prontas ao menor movimento da boca
a ganhar do mundo a vastidão

E assim a espera de ser dita
o destino da palavra
da palavra viva
da palavra brusca
sem descanso para sair
falada
enunciada
quero a palavra

Como é difícil para o verso enquadrar tropa tão dessemelhante
tão ávida
no próprio pronunciamento
a possibilidade
de finalmente ser solta
esperando uma compreensão
que só vem com o corte
com o ponto.

Que precipita um mundo
ainda não dito
com um peso de morte
ou falta de sorte

Poema que não se compôs
que não conseguiu governar uma fala
como o golpe fatídico
de um ato
que não saiu
a não ser da sofreguidão
de fato

Mulher em estado puro
sem sujeito
nem objeto
puro feminino
um só gesto

Espero um sopro
torneio francês
um não de cada lado
a palavra se acomoda
e sai chistosamente ao relento

sem igual
puro aço
lâmina
carapaça
espaço
memórias
explosão

Em outras palavras
são outra coisa

Ângelo Luís e Francisco Settineri

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BESTIÁRIO + 9

cerberus-blake

Formigas

Carregando o verde peso
Cada uma com seu naco
Pois que firmes em seu vezo
Vão direto pro buraco

Francisco Settineri.

*

Ouriço

outra vez
corro o risco

espinhos entalados
na garganta

Ângelo Luís

*

Corvo

Bate as asas,
E à janela
Já repete o mesmo mantra
E me lembra, o pilantra
Nunca mais verei a bela…

Francisco Settineri.

*

Hiena

cúmplice
de si mesma
acena o sarro,
o risco,
no indício…

(apronta o bote
no escuro
desde o início)

Ângelo Luís

*

Taturana

arrasta-se
sem lenga
lenga, de longe
ecoa alheia,
ininterrupta…

Ângelo Luís

*

molusco

na mão
que o apertar
talvez
um asco

no fundo
deste mar
é sempre
músculo

Francisco Settineri.

*

Tarântula

De repente,
mansa
surgiu pontiaguda:

agarra, amarra
contorce o silêncio
aguda…

Ângelo Luís

*

morcego

rudo mago
se aboleta
nos rincões
da funda gruta

uma asa que,
completa,
vai no inseto,
vai na fruta

Francisco Settineri.

*

Ratazana

Habitam os esgotos

E do lado de fora
Observam

Como devem viver as ratazanas?

Ângelo Luís

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

BESTIÁRIO

cerberus-blake
Cerberus, William Blake.

BESTIÁRIO

a fúria se desfez ruído
por entre o escuro
e o desespero
a boca oculta face permanece
entre lágrimas e rimas

pausas e passos
mais mudos que o desejo
feiúra animalesca
entre as árvores
festa e fresta na floresta

futuro dos bichos
e do amanhã
a fratura dos passos
o enredo das feras
este é o mais próximo ataque

onde estás a presa
onde não está o que se sabe
os olhos teimam encontrar a morte
feiúra animalesca decidindo no mato
faca no silêncio das fúrias

longo silêncio
diante do ataque
dança nas taquareiras
o resto é nada
pacto entre vida e morte

futuro lido nas tripas
abecedário das arestas e sentidos
sem alarde cessa o susto
todo cuidado não é pouco
o espaço é um lapso de tempo

Ângelo Luís e Francisco Settineri

*

Urubu

sobrevoa
sem desfazer o ar
invento

Ângelo Luís

*

Javali

pata que rasca
e risca
e solta
o peso
e arrisca.

Francisco Settineri.

*

Lesma

desliza
sobre si mesma
a esmo

Ângelo Luís

*

Carrapato

correnteza
grude
sem beleza

(até matar
a fome)

Ângelo Luís

*

Cisne
.

o barco
abrange

manso

o suntuoso
signo

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

traça

ultrapassa
em sua fúria
esse S
sem contorno

Ângelo Luís

*

Escaravelho

sonoras águas
círculo secreto
inventam mitos

submisso

Ângelo Luís

*

Bicho preguiça
.

escorrega
devagar

pesa muito
sobre o galho

e desperdiça

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

pulga

pula, pula
o sangue

um salto
exangue

Francisco Settineri.

*

mamute

em cisma
oriundo
ganhado
azimute
na casca
do mundo

Francisco Settineri.

*

ovelha

des-
garrada
de longe
o olhar
mira
sem espanto
e escuta
frágil
a sua primeira
textura

e a cada vez que respira
vê que agora
não vem
como
e porque
está
morta

Ângelo Luís

*

garça

o peixe
ao bico
deses-
perado
move

branca
altiva
salta
fora
a pernalta

não se
comove
asa sobe
e vai

Francisco Settineri.

*

elefante

sempre
deixa
forte
a sua marca

deve ao seu
passado
a sua comarca

velho
assustador,
o oligarca

Francisco Settineri.

*

Minhoca

desliza
sem aviso

até desaparecer
sem ruído

por uma fração
de segundo

Ângelo Luís

*

bugio

decrépito
desata
a vaia
ao mato

o vil
arauto
ao vento
ataca

a boca
aberta
ronca
o estrépito

Francisco Settineri.

*

Pernilongo

no quarto escuro
o voo se estende
ZOOMBIDO
rastros sangrentos nos corpos

em migalhas o sono se vai
pescoços dependurados
há muito sumiu
na palma da mão

Ângelo Luís

*

aranha

perambula
sempre feia
de um só golpe
desalmada

filigrana
costurada
ponta a ponta
amarrada

ela espera
o seu prato
desde sempre
armada

Francisco Settineri.

*

caracol

destece a vida
em seu abrigo
até sumir-se
de súbito

esparrama
incomunicável
o último
sentido

Ângelo Luís

*

jararaca

bote pronto
leve ao ar
nenhum rato
atordoado
escapa
.
o vestido
é nua escama
seu olhar
inflacionado
ataca

Francisco Settineri.

*

abelha

sem perder o ferrão
vá o que valha

tira e atira
até acertar o alvo

quando se avulta
e corre adiante

Ângelo Luís

*

zebra

pata
explode
o bando todo
alado
ao lado
vai

branca
e preta
a carne
exposta
o leão
quer

salto
a dor
um vendaval
o animal
mortal
celebra

Francisco Settineri.

*

barata

explode em casca vil
ataca
a mil por hora
em asa
torta

corre no parquê
mil pés
querendo
vê-la
morta

Francisco Settineri.

*

libélula

leve
no ar
libera
e nivela
o pouso
mantendo
seu voo
sob
a chuva

Ângelo Luís

*

cupim

bola de barro
espera e espreita
em furos feita
e escarro

no campo ao vento
o monumento
num acidente
atesta

o lenho era
duro esmero
hoje em grãos
protesta

Francisco Settineri.

*

escorpião

escondido
nos escombros
ali jaz
em uma das paredes
pronto para o ataque

Ângelo Luís

*

coruja

olhar duro
vindo abaixo
muito séria
a dita cuja

voo queda
muita farra
uma fuga
já desfeita

camundongo
na surpresa
filosofa
o subterfúgio

Francisco Settineri.

*

rinoceronte

do fundo das eras
a casca
grossa espera
a sua vez

aponta o seu
nariz
pra cima
o grande monte

Francisco Settineri.

*

mosca

espia
o pão de cada dia
sem acertar o alvo

a esmo
a mesma moléstia
sem alarde

solta
à toa
está a toda

Ângelo Luís

*

camaleão

olho imóvel
jeito velho
muita cor
mas quieto

camuflado
língua bomba
o que quer
incerto

Francisco Settineri.

*

morcego

rudo mago
se aboleta
nos rincões
da funda gruta

uma asa que,
completa,
vai no inseto,
vai na fruta

Francisco Settineri.

*

mula

a mula
simula
coceira no casco
sobram coices…

Ângelo Luís.

*

polvo

os tentáculos
contraem
testículos
em polvorosa

tudo cinza
tudo roxo
tudo rosa
e a forma?

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

BESTIÁRIO

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Willian Blake, Behemoth e Leviatã
BESTIÁRIO

ora o barulho de um de todos
a fúria se desfez ruído
por entre o escuro e o desespero
a boca oculta face permanece
fresca entre lágrimas e rimas

pausas e passos além do mais
sublime gesto sem renúncia
mais muda que o desejo
feiúra animalesca decidindo no mato
com seus tambores entre as árvores

futuro dos bichos
e do amanhã
a fratura dos passos
e o enredo das feras
mas este é o mais próximo ataque

e onde estás a presa
e onde não está o que se sabe
os olhos que teimam encontrar a morte
festa e fresta na floresta
faca no silêncio das fúrias

longo silêncio no tambor
diante do ataque que surge mais longe
dança nas taquareiras
o resto é nada
pacto entre vida e morte

o futuro lido nas tripas
abecedário das arestas e sentidos
sem alarde cessa o susto
todo cuidado não é pouco
o espaço é um lapso de tempo

Ângelo Luís e Francisco Settineri