A ÚLTIMA ELEGIA (V)

A ÚLTIMA ELEGIA (V)

Vinicius de Moraes, Londres , 1943.

O ROOFS OF CHELSEA

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
                                   no anticlímax da aurora!
                                          ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
                                          uer ar iú 
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen…
                                 “… it is, my soul, it is
Her gracious self…”
                                 murmura adormecida 
É meu nome!…
                                 sou eu, sou eu, Nabucodonosor!
Motionless I climb

the water pipes
Am I a Spider?
Am I a Mirror?
Am I an X Ray?

No, I’m the Three Musketeers
                                rolled in a Romeo.
                                        Vírus
Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.
                                                             Alas, celua
Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora
                                meus passos
                                            são gatos
Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente…
So I came
                                           — from the dark bull-like tower
                                                             fantomática
Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar — e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast — e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.
Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?
                                             quando early morn’
Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love…
                      ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô 
Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!
                              — terror no espaço!
                                   — silêncio nos graveyards!
                                               — fome dos braços teus!
Só Deus me escuta andar…
                             — ando sobre o coração de Deus
Em meio à flora gótica… step, step along
Along the High… “I don’t fear anything
But the ghost of Oscar Wilde…” …ô darlingest
I feared… a estação de trens… I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat

Or a policeman around, a stretched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and warm… — o sííííííííí
Lvo da Locomotiva — leitmotiv — locomovendo-se
Through the Ballad of Reading Gaol até a visão de
Paddington (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa dos Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: “I wish, I wish
I were asleep”. Quoth I: — Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? Ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but to take me to my maid
Minha garota — Lenore!
Quoth the driver: — Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
“I wish, I wish I were asleep…” but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid… darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas… o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul… Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
“Escrevi dez canções…
                                …escrevi um soneto…
                                         …escrevi uma elegia…”
Ô darling, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?
                                  “…escrevi um soneto…
                                         … escrevi uma carta…”
Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?
                                  …“que irão pensar
Os quatro cavaleiros do Apocalipse…”
                                 “…escrevi uma ode…”
Ô darling!
            Ô pavements!
                     Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown… — don’t cry, don’t cry!
Nothing is lost, I’ll come again, next week, I promise thee…
Be still, don’t cry…
           …don’t cry

                    …don’t cry
                               Resound
Ye pavements!
                     — até que a morte nos separe
                               ó brisas do Tâmisa, farfalhai!
Ó telhados de Chelsea,
amanhecei!

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Quatro sonetos de meditação

Quatro sonetos de meditação

(Vinicius de Moraes)

Oxford

I

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.

II

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

III

O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.

E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.

O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo

Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós…
Porém o vale há de escutar a voz.

IV

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
*

Ângelo Luís e Francisco Settineri