E a morte não terá domínio

 

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Dylan Thomas, por Simon James.

E a morte não terá domínio

Dylan Thomas – Augusto de Campos

E a morte não terá domínio.
Nus, os mortos há de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, há de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.

*

And death shall have no dominion

Dylan Thomas

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

*

Ângelo Luís

Murilograma para Mallarmé

Murilograma para Mallarmé

No oblíquo exílio que te aplaca
Manténs o báculo da palavra

Signo especioso do Livro
Inabolível teu & da tribo

A qual designas, idêntica
Vitoriosamente à semântica

Os dados lançando súbito
Já tu indígete em decúbito

Na incólume glória te assume
MALLARMÉ sibilino nome

Murilo Mendes, In: Convergência. São Paulo, Duas Cidades, 1970.

*

Ângelo Luís

BESTIÁRIO

cerberus-blake
Cerberus, William Blake.

BESTIÁRIO

a fúria se desfez ruído
por entre o escuro
e o desespero
a boca oculta face permanece
entre lágrimas e rimas

pausas e passos
mais mudos que o desejo
feiúra animalesca
entre as árvores
festa e fresta na floresta

futuro dos bichos
e do amanhã
a fratura dos passos
o enredo das feras
este é o mais próximo ataque

onde estás a presa
onde não está o que se sabe
os olhos teimam encontrar a morte
feiúra animalesca decidindo no mato
faca no silêncio das fúrias

longo silêncio
diante do ataque
dança nas taquareiras
o resto é nada
pacto entre vida e morte

futuro lido nas tripas
abecedário das arestas e sentidos
sem alarde cessa o susto
todo cuidado não é pouco
o espaço é um lapso de tempo

Ângelo Luís e Francisco Settineri

*

Urubu

sobrevoa
sem desfazer o ar
invento

Ângelo Luís

*

Javali

pata que rasca
e risca
e solta
o peso
e arrisca.

Francisco Settineri.

*

Lesma

desliza
sobre si mesma
a esmo

Ângelo Luís

*

Carrapato

correnteza
grude
sem beleza

(até matar
a fome)

Ângelo Luís

*

Cisne
.

o barco
abrange

manso

o suntuoso
signo

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

traça

ultrapassa
em sua fúria
esse S
sem contorno

Ângelo Luís

*

Escaravelho

sonoras águas
círculo secreto
inventam mitos

submisso

Ângelo Luís

*

Bicho preguiça
.

escorrega
devagar

pesa muito
sobre o galho

e desperdiça

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

pulga

pula, pula
o sangue

um salto
exangue

Francisco Settineri.

*

mamute

em cisma
oriundo
ganhado
azimute
na casca
do mundo

Francisco Settineri.

*

ovelha

des-
garrada
de longe
o olhar
mira
sem espanto
e escuta
frágil
a sua primeira
textura

e a cada vez que respira
vê que agora
não vem
como
e porque
está
morta

Ângelo Luís

*

garça

o peixe
ao bico
deses-
perado
move

branca
altiva
salta
fora
a pernalta

não se
comove
asa sobe
e vai

Francisco Settineri.

*

elefante

sempre
deixa
forte
a sua marca

deve ao seu
passado
a sua comarca

velho
assustador,
o oligarca

Francisco Settineri.

*

Minhoca

desliza
sem aviso

até desaparecer
sem ruído

por uma fração
de segundo

Ângelo Luís

*

bugio

decrépito
desata
a vaia
ao mato

o vil
arauto
ao vento
ataca

a boca
aberta
ronca
o estrépito

Francisco Settineri.

*

Pernilongo

no quarto escuro
o voo se estende
ZOOMBIDO
rastros sangrentos nos corpos

em migalhas o sono se vai
pescoços dependurados
há muito sumiu
na palma da mão

Ângelo Luís

*

aranha

perambula
sempre feia
de um só golpe
desalmada

filigrana
costurada
ponta a ponta
amarrada

ela espera
o seu prato
desde sempre
armada

Francisco Settineri.

*

caracol

destece a vida
em seu abrigo
até sumir-se
de súbito

esparrama
incomunicável
o último
sentido

Ângelo Luís

*

jararaca

bote pronto
leve ao ar
nenhum rato
atordoado
escapa
.
o vestido
é nua escama
seu olhar
inflacionado
ataca

Francisco Settineri.

*

abelha

sem perder o ferrão
vá o que valha

tira e atira
até acertar o alvo

quando se avulta
e corre adiante

Ângelo Luís

*

zebra

pata
explode
o bando todo
alado
ao lado
vai

branca
e preta
a carne
exposta
o leão
quer

salto
a dor
um vendaval
o animal
mortal
celebra

Francisco Settineri.

*

barata

explode em casca vil
ataca
a mil por hora
em asa
torta

corre no parquê
mil pés
querendo
vê-la
morta

Francisco Settineri.

*

libélula

leve
no ar
libera
e nivela
o pouso
mantendo
seu voo
sob
a chuva

Ângelo Luís

*

cupim

bola de barro
espera e espreita
em furos feita
e escarro

no campo ao vento
o monumento
num acidente
atesta

o lenho era
duro esmero
hoje em grãos
protesta

Francisco Settineri.

*

escorpião

escondido
nos escombros
ali jaz
em uma das paredes
pronto para o ataque

Ângelo Luís

*

coruja

olhar duro
vindo abaixo
muito séria
a dita cuja

voo queda
muita farra
uma fuga
já desfeita

camundongo
na surpresa
filosofa
o subterfúgio

Francisco Settineri.

*

rinoceronte

do fundo das eras
a casca
grossa espera
a sua vez

aponta o seu
nariz
pra cima
o grande monte

Francisco Settineri.

*

mosca

espia
o pão de cada dia
sem acertar o alvo

a esmo
a mesma moléstia
sem alarde

solta
à toa
está a toda

Ângelo Luís

*

camaleão

olho imóvel
jeito velho
muita cor
mas quieto

camuflado
língua bomba
o que quer
incerto

Francisco Settineri.

*

morcego

rudo mago
se aboleta
nos rincões
da funda gruta

uma asa que,
completa,
vai no inseto,
vai na fruta

Francisco Settineri.

*

mula

a mula
simula
coceira no casco
sobram coices…

Ângelo Luís.

*

polvo

os tentáculos
contraem
testículos
em polvorosa

tudo cinza
tudo roxo
tudo rosa
e a forma?

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

POESIA DE FRANCISCO SETTINERI VIII

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Alexander Rodchenko – Three monochrome, 1921

Moto contínuo

Tenta sempre ser reto e o ar altivo
Mesmo que sobrevenha uma derrota,
Busca no coração o teu motivo.

Nunca serás do fascista o cativo
Mesmo que ele te trate com chacota,
Tenta sempre ser reto e o ar altivo.

Mesmo que num mundo mais opressivo
Já comande o bandalho, o idiota,
Busca no coração o teu motivo…

Seremos, um pro outro, o decisivo
Disso todos sabemos, e anota:
Tenta sempre ser reto e o ar altivo…

Assim, irmão, prepara o que é festivo,
Que já mora no voo das gaivotas,
Busca no coração o teu motivo!

No outro lado habita o lascivo,
No mar estará sempre a nossa frota
Tenta sempre ser reto e o ar altivo,
Busca no coração o teu motivo!

Francisco Settineri.

*

Luta de Classes

Tem futuro quem conhece a sua história
Que não deixes de entrar nesta disputa,
Preparados estaremos pra vitória!

Que os vilões estejam juntos, toda a escória,
Faça o povo preparar-se pra cicuta.
Tem futuro quem conhece a sua história.

O poeta não tem outra escapatória
A não ser opor seu verso à força bruta.
Preparados estaremos pra vitória!

A chamada para todos, compulsória,
Nossa força é sideral e absoluta.
Tem futuro quem conhece a sua história.

A bancada do demônio e sua oratória
Já demonstra como ser a prostituta,
Preparados estaremos pra vitória!

Que esta luta nunca seja luta inglória,
Levantemos a bandeira! Anda! Escuta!
Tem futuro quem conhece a sua história
Preparados estaremos pra vitória!

Francisco Settineri.

*

Encontro Marcado

Tu foste para mim uma surpresa
Na tarde da visão mais constelada
E lindo foi teu rosto e foi mais nada
Que fez de mim a tua frágil presa!

Depois a lua infante foi acesa
E a letra da canção então foi dada,
Violas entoando o que é da amada
Na madrugada pura e indefesa…

De onde te surgiu lembrança amara?
Porque tu escondes tanto o que tu sentes?
E aos olhos que brilhavam não faltaram –

Sabias que eu não era indiferente -,
Tremores em tua mansa pele clara,
Palavra engasgada entre os dentes!

Francisco Settineri.

*

Em Despedida

Alarga entre as tuas mãos o que é da vida
Memória de um silêncio tenebroso,
Jamais tu a terias indevida.

Trombetas tu ouvirias na partida
A um mar a todas luzes cobiçoso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida!

Tu tens toda a alegria e a fronte erguida
E o céu que te recebe o ar grandioso,
Jamais tu a terias indevida.

Tu partes para a terra prometida
Diáspora de cheiro delicioso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida.

Assim, não chores mais na despedida
Afasta do teu rosto o ar saudoso,
Jamais tu a terias indevida.

Enfim, que nunca vejas reduzida
A veia que te deu ardor ditoso,
Alarga entre as tuas mãos o que é da vida
Jamais tu a terias indevida.

Francisco Settineri.

*

Estrela Vária

Amanhã, poeta, permita guiá-lo
A estrela que muito alto revela,
Enquanto você constrói sua capela
Que o mantém como um imóvel vassalo.

Tome, todavia, as rédeas do cavalo
E busque na bruma a alma da donzela,
Cruze toda a noite até a cidadela
O mundo está pronto pra você montá-lo.

Desliza pelas sombras, mais imprecisa
Que toda forma que escapa, e assim precoce
Dá-se toda, entretanto, à mão que alisa

E que não busca nisso nada de posse…
Tenha nisso seu mapa, a sua divisa
E não terá na vida lira tão doce!

Francisco Settineri.

*

Homenagem a Affonso ávila

Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro
Dos primevos passos mansos na enseada
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

A vida inteira me fez um guerreiro,
A paz que acreditava era cilada
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro.

Eu beijo com o ardor de um cavaleiro
O tolo desconhece a sua amada
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

Meu verbo vai com a força de um arqueiro
Levar o inimigo à derrocada
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro.

Mas veja, da tua pele eu amo o cheiro,
E vejo em todo o ser minha chamada
De quem te amou tão triste e tão primeiro.

Assim sou teu amante sobranceiro
Convoco a letra em última chamada,
Meu verso é só pra ti, eu sou parceiro
E quem te amou tão triste e tão primeiro.

Francisco Settineri.

*

Barricadas

Vejam, vejam o que lhes restou do Norte
Pois sua luta foi somente virtual,
Escaparam de se expor ao braço forte.

Luta e barricadas sejam nosso forte!
Destemida seja a luta corporal,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte.

Quem quer ter um futuro não teme a morte
Os que temem escapar de um funeral
Escaparam de se expor ao braço forte.

Quem espera em sua casa a boa sorte
Sofre o medo mais do que tradicional,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte.

O momento é perigoso e de tal porte
Que os que fogem da luta descomunal
Escaparam de se expor ao braço forte.

Camaradas, esta luta é a de morte
Para as ruas, enfrentar o bestial,
Vejam, vejam o que lhes restou do Norte,
Escaparam de se expor ao braço forte!
.

Francisco Settineri.

*

Penumbra

Eu tenho o raro dom da letra, essa façanha
E assim cantar os belos fados, poder tê-los
Poeta sempre fui e a noite me acompanha
E olho firme pros teus olhos com desvelos.
Escrevo um verso que me vem lá das entranhas,
Delícia de correr as mãos por teus cabelos
.

Frncisco Settineri.

*

tanka mudo

tuas lágrimas escorrem pelo rosto
e secam logo o meu carinho mudo.
No mundo vai-se o sal de um olho triste…

Francisco Settineri.

*

Mácula

Não deixe que se esqueça o olho antigo
Atenta com frescor e sua brancura,
Ampara como pode o ombro amigo.

Da árvore que colhe doce figo
Aprenda o manancial e a formosura,
Não deixe que se esqueça o olho antigo

A mágoa ao coração é um perigo
E mesmo o justo peca em sua loucura,
Ampara como pode o ombro amigo.

Argila um dia eu fui e hoje sigo
E falho ao me infligir grave tortura
Não deixe que se esqueça o olho antigo.

Perdão é tudo aquilo que persigo
E digo, irmão, que siga na procura,
Ampara como pode o ombro amigo!

Não leve o rancor de um inimigo
Que nunca o acompanhe à sepultura,
Não deixe que se esqueça o olho antigo
Ampara como pode o ombro amigo!

Francisco Settineri.

*

Bocas

beijos nas brumas
entre paus e pedras
e pernas bem hábeis
na beira do ócio
e pegam na boca
botija incontida
o cio esperado
à beira do óbvio
que muito queria
do lábio sortido
que simples se abre

Francisco Setineri.

*

Plenilúnio

A sombra de uma falta foi tão negra
Que logo me tomou e me abateu.
O brilho de uma noite em que fui teu
Não foi o que eu pensara como regra.

O pouco do que sobra e que me alegra
Lembrança do que fui em lábio teu
Não foi apenas sonho que morreu
Recordo que jamais se desintegra.

Vaguei depois no mundo em rumo incerto
Lembrando o diadema que correu
Na basta cabeleira e o perniaberto

Que o nosso leito em festa acolheu
Eu tanto te queria, tão mais perto,
Não era outro poeta que não eu…

Francisco Settineri

*

Acordei cedo
Não dei aos versos mais nenhuma trégua
Falando ao povo sempre a mesma língua
um pouco mais do que um segredo

Não tive medo
E fui desde o começo
aquele que disse a ti que era verdadeiro
Pois sempre soube
que era muito mais
E forte porque foi o primeiro.

Francisco Settineri.

ARGILA

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Argila

9h

como se fosse uma manhã longa
cheia de entusiasmo
sem aviso
é preciso dar um jeito
é a vida
ainda ausente
imóvel
de um corpo receoso
que ousa esconder a face
e o gosto amargo da garganta
voam pássaros em batidas de asas vazias
o coração sangra preso ao vento
as horas passam

11:30

de vez em vez
decifro ideias
decifro palavras
o grito
a apatia
além da agonia
no meio dia
de quando em quando

16h

viagem sem sair do lugar
por detrás dos escombros
só um aviso
a boca não abre
a boca não
a boca
a sede
a falta de sede
cede lugar
de graça
no ócio
do dia
e divide
o sentido imóvel
para não voltar
diurno
as horas nunca serão suas

21h

nenhum não
estranha
as entranhas
que nos acompanha

22h

o amante mórbido
no seu desejo
monótono
derrama
a morte

23h

tanto pior
os desejos
de quantos males
verão extiguir-se
o pouso noturno
do voo inútil
sem poder fugir
de si
meia -noite
por um fio
o vazio
se arrasta perdido
sem me libertar

3h

o repouso justo
dos vivos
aguarda a hora
pela última vez
nunca mais
salve-se
quem não estiver

*

Ângelo Luís