BESTIÁRIO + 9

cerberus-blake

Formigas

Carregando o verde peso
Cada uma com seu naco
Pois que firmes em seu vezo
Vão direto pro buraco

Francisco Settineri.

*

Ouriço

outra vez
corro o risco

espinhos entalados
na garganta

Ângelo Luís

*

Corvo

Bate as asas,
E à janela
Já repete o mesmo mantra
E me lembra, o pilantra
Nunca mais verei a bela…

Francisco Settineri.

*

Hiena

cúmplice
de si mesma
acena o sarro,
o risco,
no indício…

(apronta o bote
no escuro
desde o início)

Ângelo Luís

*

Taturana

arrasta-se
sem lenga
lenga, de longe
ecoa alheia,
ininterrupta…

Ângelo Luís

*

molusco

na mão
que o apertar
talvez
um asco

no fundo
deste mar
é sempre
músculo

Francisco Settineri.

*

Tarântula

De repente,
mansa
surgiu pontiaguda:

agarra, amarra
contorce o silêncio
aguda…

Ângelo Luís

*

morcego

rudo mago
se aboleta
nos rincões
da funda gruta

uma asa que,
completa,
vai no inseto,
vai na fruta

Francisco Settineri.

*

Ratazana

Habitam os esgotos

E do lado de fora
Observam

Como devem viver as ratazanas?

Ângelo Luís

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

O Rei

rilke
Rainer Maria Rilke

O Rei

Rainer Maria Rilke – Augusto de Campos

O rei tem só dezesseis anos e
já é o Estado.
Como de uma emboscada, vê,
por entre os velhos do Senado,

a sala, de olhos fitos muito além,
e talvez sinta apenas o frio
do colar de ouro que mantém
sob o queixo longo, duro e esguio.

A sentença de morte à sua frente
há longo tempo aguarda sem
seu nome. Pensam: “Como se tortura…”

Mal sabem que ele simplesmente
conta, devagar, até cem
antes de apor a assinatura.

Der König

Rainer Maria Rilke

Der König ist sechzehn Jahre alt.
Sechzehn Jahre und schon der Staat.
Er schaut, wie aus einem Hinterhalt,
vorbei an den Greisen vom Rat

in den Saal hinein und irgendwohin
und fühlt vielleicht nur dies:
an dem schmalen langen harten Kinn
die kalte Kette vom Vlies.

Das Todesurteil vor ihm bleibt
lang ohne Namenszug.
Und sie denken: wie er sich quält.

Sie wüßten, kennten sie ihn genug,
daß er nur langsam bis siebzig zählt
eh er es unterschreibt.

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

E a morte não terá domínio

 

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Dylan Thomas, por Simon James.

E a morte não terá domínio

Dylan Thomas – Augusto de Campos

E a morte não terá domínio.
Nus, os mortos há de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, há de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.

*

And death shall have no dominion

Dylan Thomas

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

*

Ângelo Luís

Murilograma para Mallarmé

Murilograma para Mallarmé

No oblíquo exílio que te aplaca
Manténs o báculo da palavra

Signo especioso do Livro
Inabolível teu & da tribo

A qual designas, idêntica
Vitoriosamente à semântica

Os dados lançando súbito
Já tu indígete em decúbito

Na incólume glória te assume
MALLARMÉ sibilino nome

Murilo Mendes, In: Convergência. São Paulo, Duas Cidades, 1970.

*

Ângelo Luís

BESTIÁRIO

cerberus-blake
Cerberus, William Blake.

BESTIÁRIO

ora o barulho de um de todos
a fúria se desfez ruído
por entre o escuro e o desespero
a boca oculta face permanece
fresca entre lágrimas e rimas

pausas e passos além do mais
sublime gesto sem renúncia
mais muda que o desejo
feiúra animalesca decidindo no mato
com seus tambores entre as árvores

futuro dos bichos
e do amanhã
a fratura dos passos
e o enredo das feras
mas este é o mais próximo ataque

e onde estás a presa
e onde não está o que se sabe
os olhos que teimam encontrar a morte
festa e fresta na floresta
faca no silêncio das fúrias

longo silêncio no tambor
diante do ataque que surge mais longe
dança nas taquareiras
o resto é nada
pacto entre vida e morte

o futuro lido nas tripas
abecedário das arestas e sentidos
sem alarde cessa o susto
todo cuidado não é pouco
o espaço é um lapso de tempo

Ângelo Luís e Francisco Settineri

*

Urubu

sobrevoa
sem desfazer o ar
invento

Ângelo Luís

*

Javali

pata que rasca
e risca
e solta
o peso
e arrisca.

Francisco Settineri.

*

Lesma

desliza
sobre si mesma
a esmo

Ângelo Luís

*

Carrapato

correnteza
grude
sem beleza

(até matar
a fome)

Ângelo Luís

*

Cisne
.

o barco
abrange

manso

o suntuoso
signo

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

traça

ultrapassa
em sua fúria
esse S
sem contorno

Ângelo Luís

*

Escaravelho

sonoras águas
círculo secreto
inventam mitos

submisso

Ângelo Luís

*

Bicho preguiça
.

escorrega
devagar

pesa muito
sobre o galho

e desperdiça

Ângelo Luís e Francisco Settineri.

*

pulga

pula, pula
o sangue

um salto
exangue

Francisco Settineri.

*

mamute

em cisma
oriundo
ganhado
azimute
na casca
do mundo

Francisco Settineri.

*

ovelha

des-
garrada
de longe
o olhar
mira
sem espanto
e escuta
frágil
a sua primeira
textura

e a cada vez que respira
vê que agora
não vem
como
e porque
está
morta

Ângelo Luís

*

garça

o peixe
ao bico
deses-
perado
move

branca
altiva
salta
fora
a pernalta

não se
comove
asa sobe
e vai

Francisco Settineri.

*

elefante

sempre
deixa
forte
a sua marca

deve ao seu
passado
a sua comarca

velho
assustador,
o oligarca

Francisco Settineri.

*

Minhoca

desliza
sem aviso

até desaparecer
sem ruído

por uma fração
de segundo

Ângelo Luís

*

bugio

decrépito
desata
a vaia
ao mato

o vil
arauto
ao vento
ataca

a boca
aberta
ronca
o estrépito

Francisco Settineri.

*

Pernilongo

no quarto escuro
o voo se estende
ZOOMBIDO
rastros sangrentos nos corpos

em migalhas o sono se vai
pescoços dependurados
há muito sumiu
na palma da mão

Ângelo Luís

*

aranha

perambula
sempre feia
de um só golpe
desalmada

filigrana
costurada
ponta a ponta
amarrada

ela espera
o seu prato
desde sempre
armada

Francisco Settineri.

*

caracol

destece a vida
em seu abrigo
até sumir-se
de súbito

esparrama
incomunicável
o último
sentido

Ângelo Luís

*

jararaca

bote pronto
leve ao ar
nenhum rato
atordoado
escapa
.
o vestido
é nua escama
seu olhar
inflacionado
ataca

Francisco Settineri.

*

abelha

sem perder o ferrão
vá o que valha

tira e atira
até acertar o alvo

quando se avulta
e corre adiante

Ângelo Luís

*

zebra

pata
explode
o bando todo
alado
ao lado
vai

branca
e preta
a carne
exposta
o leão
quer

salto
a dor
um vendaval
o animal
mortal
celebra

Francisco Settineri.

*

barata

explode em casca vil
ataca
a mil por hora
em asa
torta

corre no parquê
mil pés
querendo
vê-la
morta

Francisco Settineri.

*

libélula

leve
no ar
libera
e nivela
o pouso
mantendo
seu voo
sob
a chuva

Ângelo Luís

*

cupim

bola de barro
espera e espreita
em furos feita
e escarro

no campo ao vento
o monumento
num acidente
atesta

o lenho era
duro esmero
hoje em grãos
protesta

Francisco Settineri.

*

escorpião

escondido
nos escombros
ali jaz
em uma das paredes
pronto para o ataque

Ângelo Luís

*

coruja

olhar duro
vindo abaixo
muito séria
a dita cuja

voo queda
muita farra
uma fuga
já desfeita

camundongo
na surpresa
filosofa
o subterfúgio

Francisco Settineri.

*

rinoceronte

do fundo das eras
a casca
grossa espera
a sua vez

aponta o seu
nariz
pra cima
o grande monte

Francisco Settineri.

*

mosca

espia
o pão de cada dia
sem acertar o alvo

a esmo
a mesma moléstia
sem alarde

solta
à toa
está a toda

Ângelo Luís

*

camaleão

olho imóvel
jeito velho
muita cor
mas quieto

camuflado
língua bomba
o que quer
incerto

Francisco Settineri.

*

morcego

rudo mago
se aboleta
nos rincões
da funda gruta

uma asa que,
completa,
vai no inseto,
vai na fruta

Francisco Settineri.

*

mula

a mula
simula
coceira no casco
sobram coices…

Ângelo Luís.

*

polvo

os tentáculos
contraem
testículos
em polvorosa

tudo cinza
tudo roxo
tudo rosa
e a forma?

Ângelo Luís e Francisco Settineri.