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Números

Números

Não valho muito, é certo:

— dizia o Um ao Zero —

mas tu quanto vales? Vales nada.

Quer seja nas ações ou pensamentos,

só resta algo vazio e sem proveito.

Já eu, se do meu lado boto de enfiada

cinco zeros iguaizinhos a ti,

sabes quanto viro? Viro cem mil!

É matemática!… Mas a verdade

é que o mesmo sucede ao ditadores,

que crescem em potência e em maldade

quanto mais zeros têm por seguidores.
(Trilussa, tradução de Cide Piquet)
***
“Nummeri”
Trilussa

Conterò poco, è vero:

– diceva l’Uno ar Zero –

ma tu che vali? Gnente: propio gnente.

Sia ne l’azzione come ner pensiero

rimani un coso voto e inconcrudente.

lo, invece, se me metto a capofila

de cinque zeri tale e quale a te,

lo sai quanto divento? Centomila.

È questione de nummeri. A un dipresso

è quello che succede ar dittatore

che cresce de potenza e de valore

più so’ li zeri che je vanno appresso.
*
Ângelo Luís e Francisco Settineri.

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Publicado em Francisco Settineri

POESIA DE FRANCISCO SETTINERI IX

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André Derain (French, 1880 – 1954), Mountains at Collioure, 1905

Teorema

Deixa o teu cabelo ganhar diadema
E que a noite recupere a sua magia,
Teus lindos olhos brilham como um poema!

Que o nosso amor incandesça um teorema
Que os nossos dois corpos formem alegria,
Deixa o teu cabelo ganhar diadema.

Teu belo corpo mais cheira a alfazema,
E nenhuma mácula entre nós jazia.
Uma cópula ardente para nós extrema!

Quentes os teus lábios uma vez suprema
Vida em que se pôs grande feitiçaria!
Deixa o teu cabelo ganhar diadema…

Mas uma vez juntos para sempre o tema
De nós feito como obscura teologia
Pensa, pensa, e afasta qualquer dilema.

Um barco vai forte e para sempre rema,
E a gala de um amo a nós assim faria,
Deixa o teu cabelo ganhar diadema,
Teus lindos olhos brilham como um poema…
.

Francisco Settineri.

*

 

Prece

Eu bem que te avisei, menina linda
Que o amor é sempre amargo
Depois dele vem o grande letargo
E a saudade que muito dói, vinda

Não se sabe de onde, mas que finda
A manhã, vem o desembargo
Da tristeza, e finalmente o descargo,
O alívio, tua noite na berlinda!

Eu queria que tu bem soubesses
Das noites quentes, alucinadas
E do exato sentido do nada

Que te apavora, quando de novo a noite desce.
Mas não, não vou te dizer da fechada
Curva da existência, da vida e da prece!!!
.

Francisco Settineri.

*

Instruções para dobrar pirilampos

Também conhecidos por vaga-lumes, voam pelas copas das árvores, alimentando-se de lesmas e caramujos.

Você pode reuni-los em uma caixa de goiabada, mas por certo os vidros são mais adequados.

Para tanto, é preciso saber tocar de maneira correta as suas patinhas, que assim se flexionarão e recolherão docilmente. É como a roupa que se dobra, entregando-se à natural suavidade dos dedos.

Essa empreitada deve ser realizada ainda no verão, pois o que chamamos de vaga-lumes são os insetos machos, que duram apenas por volta do período do acasalamento. Antes disso, o que você teria para dobrar seriam larvas ou pupas. Devemos ser rápidos em sua captura, para que os vidros possam ficar cheios.

Alguns cálculos aritméticos orientarão a captura, levando-se em conta a largura e a espessura dos desses coleópteros, assim como o comprimento e a área dos círculos a serem cobertos. Entre uma e outra camada de vaga-lumes, um círculo de papel manteiga ou de seda. Não se pode encher demais os vidros, para que os animaizinhos não fiquem machucados e com pouco ar, em sua hibernação forçada. O Brasil é o país onde há mais espécies de pirilampos, que utilizam suas luzes para se defender dos predadores e para atrair as fêmeas.

A surpresa luminosa pode vir no quarto ou na sala de jantar de luz apagada. É o momento, numa noite quente de verão, de afinal soltar essas pequenas criaturas tão aparentadas com as estrelas e com os sonhos.

Francisco Settineri.

Publicado em Castro Alves

O povo ao poder

O povo ao poder

(Castro Alves)

QUANDO nas praças s’eleva
Do povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!… pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu…
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos…
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira…
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem… nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.

A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu’infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.

No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções…
Não deixais que o filho louco
Grite “oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações”.

Mas embalde… Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal…
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz…
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

*

Ângelo Luís e Francisco Settineri

Publicado em Vinicius de Moraes

A ÚLTIMA ELEGIA (V)

A ÚLTIMA ELEGIA (V)

Vinicius de Moraes, Londres , 1943.

O ROOFS OF CHELSEA

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
                                   no anticlímax da aurora!
                                          ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
                                          uer ar iú 
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen…
                                 “… it is, my soul, it is
Her gracious self…”
                                 murmura adormecida 
É meu nome!…
                                 sou eu, sou eu, Nabucodonosor!
Motionless I climb

the water pipes
Am I a Spider?
Am I a Mirror?
Am I an X Ray?

No, I’m the Three Musketeers
                                rolled in a Romeo.
                                        Vírus
Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.
                                                             Alas, celua
Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora
                                meus passos
                                            são gatos
Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente…
So I came
                                           — from the dark bull-like tower
                                                             fantomática
Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar — e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast — e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.
Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?
                                             quando early morn’
Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love…
                      ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô 
Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!
                              — terror no espaço!
                                   — silêncio nos graveyards!
                                               — fome dos braços teus!
Só Deus me escuta andar…
                             — ando sobre o coração de Deus
Em meio à flora gótica… step, step along
Along the High… “I don’t fear anything
But the ghost of Oscar Wilde…” …ô darlingest
I feared… a estação de trens… I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat

Or a policeman around, a stretched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and warm… — o sííííííííí
Lvo da Locomotiva — leitmotiv — locomovendo-se
Through the Ballad of Reading Gaol até a visão de
Paddington (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa dos Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: “I wish, I wish
I were asleep”. Quoth I: — Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? Ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but to take me to my maid
Minha garota — Lenore!
Quoth the driver: — Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
“I wish, I wish I were asleep…” but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid… darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas… o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul… Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
“Escrevi dez canções…
                                …escrevi um soneto…
                                         …escrevi uma elegia…”
Ô darling, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?
                                  “…escrevi um soneto…
                                         … escrevi uma carta…”
Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?
                                  …“que irão pensar
Os quatro cavaleiros do Apocalipse…”
                                 “…escrevi uma ode…”
Ô darling!
            Ô pavements!
                     Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown… — don’t cry, don’t cry!
Nothing is lost, I’ll come again, next week, I promise thee…
Be still, don’t cry…
           …don’t cry

                    …don’t cry
                               Resound
Ye pavements!
                     — até que a morte nos separe
                               ó brisas do Tâmisa, farfalhai!
Ó telhados de Chelsea,
amanhecei!

Publicado em Francisco Settineri

Metamorfoses

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Miró

METAMORFOSE

a angústia me consome

avatar da morte incerta

carapaça e nó que aperta

o meu mundo que se some

*

METAFORMOSE

a angústia da morte incerta

avatar me consome

carapaça que se some

o meu mundo e nó que aperta

*

META SE FORMO

angústia incerta

avatar se some

o meu mundo

carapaça me consome

*

Francisco Settineri